Gaúcho
Bem ao sul do sul do mundo, na gênese da criação, à luz da evolução, eu estava aqui no fundo junto ao útero fecundo óvulo por testemunho, que veio traçar o rascunho do santo mapa do chão, de lança firme na mão, com vernáculo terrunho.
No confim meridional, vim ser base da nação, p'ra cumprir uma missão terrunha e espiritual, meu cordão umbilical unido ao solo vaqueano, traz no cerne do tutano uma têmpera gaudéria que leva a cada artéria o sangue rubro pampiano.
Ao passo da evolução, com povos sendo criados, entre guerras e tratados em nome da formação, de pronto firmei o garrão no hemisfério sulino, obrando o chão campesino, dele tirando o farnel, no empirismo fiel do atavismo genuíno.
Ao sopro da ventania, na membrana da querência, deixei minha descendência plasmada na geografia e na crua filosofia da pedra e do carvão, sorvi mate-chimarrão po bivaques andarengos, junto a conclaves avoengos em volta a fogos de chão.
As léguas de liberdade ornaram minhas retinas, até chegarem batinas impondo autoridade, convertendo a humildade da inocência pampeira com sua reza cantadeira na benção destes espaços e abracei os quatro braços da Santa Cruz Missioneira.
Pós a primeira visita do invasor bandeirante ao meu solo verdejante com a sua fúria maldita, numa ânsia parasita, que vinha nos destruindo, me toparam resistindo com as tribos coirmãs, recuando as almas pagãs que jamais deviam ter vindo.
A terra que me formou no tempo que vai além, era a “Terra de ninguém” p’ro invasor que chegou, mas que aqui encontrou a barbaresca linhagem da raça xucra e selvagem que tinha o solo por pátria e os deuses na via láctea a alumbrar a coragem.
P'ra testar a resistência chegaram novos intrusos, os espanhóis e os lusos com tropas de prepotência, sentindo força em essência nos enleios da refrega, e na mesma ânsia cega orelhanos, castelhanos, viram desde à luz dos anos que o taura não se entrega.
Vão mais de quinhentos anos na guarnição da fronteira, marcando a cerca lindeira com outros povos hermanos, horizontes campechanos em permanente assembléia, visualizando a platéia rica em miscigenação, de adaga e lança na mão escrevendo esta epopéia.
Quando a América nascia prestei auxílio no parto com um repertório farto de tática e valentia, honrando a genealogia a tiro de bola e pealo, sem aceitar ser vassalo ou perder a pampa nua, tatuando marcas de lua com os cascos do cavalo.
Na lonca do território que defendi com afinco, nos idos de “trinta e cinco” com anseio compulsório, o campo foi o cartório onde lavrei a certidão de sentinela do chão, nativo e libertário, com espírito plenário em perene evocação.
E na missão sacrossanta de atalaia primitivo, com o olhar sempre vivo e o sapucay na garganta, a coragem que suplanta empecilhos e mandatos nos feitos intemeratos guiou-me para a conquista na “gesta federalista” de chimangos e maragatos.
Escrevi minha história no tinteiro do combate com meu sangue escarlate que tem genoma de glória, entendendo que vitória é fazer prevalecer o direito de querer, de sentir ou de opinar e desta forma ganhar até mesmo se perder.
E se a vida é de luta, se luta para viver e fazer prevalecer a verdade sem permuta, mantendo a mesma conduta, respeito, honestidade, honrando a identidade no exemplo de cada ação, sempre estendendo a mão p'ra vida e a liberdade.
Sou um espírito de fé, na aura dos tempos novos, argila dos Sete Povos, da linhagem de Sepé, com etnias de pé no segmento que puxo, aguentando o repuxo, bem ao sul do sul do mundo, com este orgulho profundo de ter nascido GAÚCHO.