Bento Gonçalves Carneiro, O Vampiro Sul Brasileiro
Me tira esses “zóio”, “zoiúdo”, E vai procurar teus “cupinchas”... Sou cria do oco da grota E logo rebento tua cincha; Eu venho de “treztrezontonte”, Mistura de bicho e soldado... Não sei se minha adaga ou meus dentes, Qual deles que “tá” mais afiado.
Me vira essa fuça, tinhoso, Que a noite é salão do meu baile... Eu dito o compasso e a dança E quem não quiser que se peale. Eu faço somente o que as gentes Repetem nos palcos de guerra... Pois tomo meu trago mais quente Do que outros derramam na terra.
Por isso me chamam de monstro... Eu gosto de sangue a granel... E sangue é “tão” bom que estes versos Já tão vermelhando o papel. Faz tempo que os homens se matam Por pátria, por Deus, por mesquinhos... Se sempre tem sangue “a la farta”, O que tem demais uns golinhos?
Eu sou um vampiro gaúcho, Criado nas“revolução”... Mas quase revira meu bucho As rusgas de irmão contra irmão. A morte já dava risada E eu, mesmo monstro, tremia, Mirando essa gente aloprada Matar e morrer sem valia.
Meu lenço que hoje é encarnado, Não sei de que cor era antes; Não lembro se fui maragato Ou se ele é vermelho de sangue. Eu sugo esse sangue por “bóia”, Pra mim é sustento e cachaça; Porque sou o monstro da história Se os outros derramam de graça?
Talvez seja porque eu beba bem na fonte, No pescoço apetitoso dos “cristão”;
Se um vivente se descuida pela noite, Vou direto e sem terceirização.
Não me julguem se a mordida foi fatal, Eu não tenho nenhum mal, eu tenho é fome; Diferente da brabeza irracional Que carrega o meu compadre lobisomem.
Dispara agora, “zoiúdo”, Capa o gato, pica a mula; Que este vampiro esfomeado De vereda já te pula. Eu venho há quinhentos anos Acompanhando vocês E o que eu faço é fichinha Pra o que tua espécie já fez.
Eu “tive” na Cisplatina Mirando a saga malina De matar por um país; Eu “tive” lá nas Missões Bombeando tantos canhões Massacrando os guaranis.
Nas cargas dos farroupilhas Eu mirei as ventanias De uma pátria a despertar; E ainda me compadeço Que a guerra cobrou seu preço: Matar, matar e matar!
(Na feita levei três “taio” Defendendo o meu tocaio.)
Eu peleei no Paraguai todo gabola, Abracei noventa e três e errei o bote; Poisnotei que pras chacinas e degolas Este pobre vampirinho é só um filhote.
Assim foi em vinte três e vinte quatro, Assim foi em cada campo de batalha; Sobre os pulhas do passado meu relato... Para as pulhas do presente, faca e bala!
Muita gente me quer mal só porque eu sugo, Mas é minha natureza, por favor; Porque ficam me tirando pra verdugo Numa terra onde tem tanto sugador?
Tem tantos sugando a pátria, Até aí nada de novo... E sempre quem paga o pato É a gente humilde do povo.
Tem outros sugando crenças, Mais uns sugando verdades, Massacrando os diferentes Por banditismo ou vaidade.
Cada um suga de um jeito Cada direito sugado; Atrás da orelha há uma pulga, Que de tanto suga-suga Secou a teta do estado.
Me sinto peixe pequeno, Esse é meu grande resumo... Eu sugo só o suficiente, Somente pra o meu consumo. Eu sigo costeando a história, Não sou velho nem sou moço... Eu sou é bem conservado Com suquinho de pescoço.
Bento Gonçalves Carneiro, Vampiro sul-brasileiro, Se despede de antemão; Pois o sol termina a festa E eu vou tirar uma sesta No fundo do meu caixão.
Se tu ”atrapalhar" meu sono Te puxo uma maldição!
Tem uns “loco” que eu não mato, Só vampirizo as ideias... Bebem sangue, mordem forte E sugam que é umas teteias... Se é do teu interesse, Cuidado que tem um desses Sentado aí na plateia!
Não te preocupa, vivente, É só tu não me “acordar”... Mas ele “tá” bem campante, Mirando tua jugular!!!