Don Giovanni, imigrante
Sua alma içou velas em busca de um novo cais. Tantos sonhos, tantos ais, guiados pelas estrelas... A vida e suas mazelas redesenharam o norte. Cativo da própria sorte, de desamores e guerras, aportou em outras terras Don Giovanni, imigrante.
Órfão de pátria e timão, feito um barco à deriva, encontrou mãe adotiva que acolheu, em seu pendão, o filho do coração. Ao cruzar um mar de pranto, encheu os olhos de campo, de labor e esperança ainda que, na lembrança, houvesse dor, desencanto.
Cada semente plantada na partitura do solo era alento, era consolo à sua dura jornada de foice, arado e enxada. Uniu sua voz à canção que aprendeu na plantação e foi cultivando laços, pois, ao longo dos compassos, as notas se dão as mãos.
Don Giovanni acreditava que a vida era uma ópera, uma parceria insólita entre o príncipe das trevas, que a música assinava, e Deus, sublime poeta, célebre autor do libreto. A Terra, grande teatro, em seus infinitos atos, eterna obra incompleta...
E o imigrante aceitou cambiar cena e figurino quando o senhor do destino no intermezzo indicou. Ao prelúdio abandonou, rumo a um grande final. A orquestra, em recital, acompanhou o dueto... Compôs sua própria opereta Don Giovanni, magistral.
Ah! O palco do amor, enfim, abriu as cortinas. Mal cabia nas retinas o encanto do tenor ao ver a diva, em clamor, no calor de seu abraço. Ela preencheu o espaço que o imigrante trazia em seu peito sem poesia, agora cheio de graça.
Formou família no seio da pátria-mãe adotiva... De triste barco à deriva a porto seguro, esteio. Navegando em seus anseios, encontrou o próprio norte e, bendizendo a sorte, depois da dor e das guerras, foi feliz em novas terras Don Giovanni, imigrante!