Doce elegia ao Domador Ausente
Publicado em
(a Cid Mariano – in Memoriam)
Pela fresta da janela onde te via passar, transpassa hoje a saudade que sempre acha teu rosto, mesmo eu teimando e querendo não te encontrar.
Relembro então teus abraços, teus lábios doces de amar, teu sorriso e aquele jeito de achar o caminho certo e ter na vida um lugar.
Assim de vi passar Pássaro livre no espaço com armadilhas no olhar.
Sob a quincha de um sombreio negro morada avulsa de quem bate estribos, um par de olhos “franqueiros” da cor da pampa estendida – refletiam ânsias de bagual teimoso querendo esconder o toso de quem já esporeou a vida.
Não que a tivesse amansado – com ela só se acostuma.
Mas quando as garras e as esporas ferramentas de índio taura – escoravam tua alma inquieta no lombo de um mal domado, o pago inteiro te reverenciava pois era forte o santo que habitava sob o céu da copa do teu mal tapeado.
Sim trazias o endosso da pampa “nas de garrão” “tira cisma”, benzidas com a graxa e cinza – pra maldizer tempo feio, e a força dos temporais bem atada nos bocais pra sofrenar teus anseios.
- E eram tantos nesse tempo – tempo todo primavera, enquadrando na janela os malinos que encilhavas pra topar “co” a ventania, e cada golpe no espaço retemperava teu braço qual aço em franca sangria.
Foi nesse tempo que teus olhos puros vestiram afagos dos meus olhos moços eu soube então de todos os abraços que, mesmo breves, foram meu futuro, paixão do mundo que habitou em mim coração partido bem antes do fim –
Havia imparcialidade no tom espesso da tua voz serena que garantiram o meu bem querer, nem o tempo nem a vida inteira te farão ausente da minha aquarela, nem dirão que sonhos eu devo viver.
Por ti meus olhos fecharam, minha voz sussurrou, o corpo inteiro tremeu, mas, abreviaram minha alegria, distanciaram-me da estrela guia, minhas noites já viraram dia e o meu sol ainda não apareceu...
A moldura da janela saudosa de primaveras ainda espera um retrato teu, teus olhos verdes loucos de desejo, a esmolar os beijos que já não são meus, depois do mate do estribo um até breve no gesto, tirando a sombra do rosto sem mais delongas, partias e o riso acima do ombro eternizava esse quadro pra encher minhas tardes vazias.
Agora aparece esta lembrança embriagada de infinita ausência, aos olhos dessa tela - que me foi parceira - sou a primeira e a última na dor, mas aos olhos desse eterno amor dôo-me toda, saudade, silêncio, espera... assim eu te vi passar pássaro livre no espaço...