Chasque Pra Dom Caetano
Publicado em
Veio a galope aquele julho, Quase encordoando janeiro, Na mão do tempo caborteiro, Que sempre rebenta o sovéu, E como num mandado do céu, Deitou o toso Dom Caetano, Foi "pajar" para o soberano De lenço, espora e chapéu.
De certo o patrão divino Alguma mágoa remoía E quis ouvir uma poesia Lá quando a tardese apaga. Repassando em sua plaga, Do rodeio campesino, Lembroude um touro brasino Da velha São Luiz Gonzaga.
Partiu do pago terreno Que amava acima de tudo, Porque já andava colmilhudo Falseando o último pealo, E para servir de regalo A quem vem do pajonal, Até ao portão celestial Por certo foi de "a cavalo".
Chegou dando "ôh de casa", Por costume do seu povo, Já cevando um mate novo, Hasteando a nossa bandeira Por pura cepa campeira Se lá no céu tem divisão, Ergueu um rancho e galpão Na parte que é missioneira.
Vai um chasque do teu povo Que nem por nada se entrega. E ainda sustenta a refrega Mesmo na tala do mango, Uma peleia em fandango, Até nos céus deve ser fato, Se um santo deu maragato, Sempre tem outro chimango.
Assim prossegue o Rio Grande Mais curtido a cada geada Que o atavismo da indiada Nem a internet arrebanha, Ainda golpeamos boa canha, Para lida bruta tem vaga E algum estouro de adaga Nos bochinchos de campanha.
A nossa tropilha crioula, Bem domada e na forma, Tem só um fora da norma Que os arreios discrimina. Um ventena, pura crina, Que na vida do índio vago Pode fazer mais estrago Do que ciúme de china.
O negro do pastoreio Ainda reponta a pedidos. Encontra aperos perdidos E até cambicho extraviado. Esse negrinho abençoado, Com uma destreza medonha, Só não encontra a vergonha Dos políticos do Estado.
Lá adiante do passo velho Há um fogo que serpenteia. É o boitatá que vagueia Embaraçando o campeiro. Diz que é jujo feiticeiro, Ou estrela desgarrada, Que no pago aquerenciada Não voltou mais ao cruzeiro.
O nosso mate sagrado, De espuma buena na ceva, Tenho o palpite que leva Em cada puxada amarga Um fiambrezito da carga Que todo mortal ombreia E quanto mais paleteia, Mais a distância se alarga.
E a cordeona, meu patrício, Oito baixos ou botoneira, Em sua prosa galponeira, Que nos cai como uma luva, Desde a serra à Timbaúva, Num fandango em rancherio Ronca mais do que um bugio Quando o tempo vai prachuva.
Se abaguala a gurizada, Sem manha ou choramingo, Nessas artes de domingo, Um sonho é menos custoso E talvez um mais tramposo Desses piás sem embaraço Termina cerrando um laço Nas aspas do boi barroso.
Para definir essas prendas Qualquer poeta se aperta. Nossos luzeiros, na certa, Candeeiros na noite escura, Entre um misto de ternura Com a malícia feminina Contra feitiço de china Não adianta benzedura.
Dos encantos da gaúcha, Que nem mandinga defende, Até o mais taura se rende Pelas carpetas do amor. Não se cresce o jogador Quando é uma vaza perdida Jamais retrucaou envida Quem sai de brinco e é flor.
As nossas almas serenas, Dos gaúchos de outras eras, Ressongam nessas taperas Galopeadas de outro plano Porque a saudade, Caetano, Perpassa a própria existência E as crias dessa querência Voltam no vento minuano.
Só teu verso não regressa Naquela bruta linguagem E a rima anda selvagem, Já desgarrou da tropilha Da décima até à sextilha Vai campo afora alçada Que no laço da payada Ficou faltando a presilha.
Mas permanece o legado, Herdado dos ancestrais, Do relincho dos baguais Até o moirão de pau ferro. E que meu relato austero Golpeie tua alma charrua Com fio melhor do que pua Das asas do quero-quero.
Que saiba o Caetano Braun, Mesmo em outra invernada, Desde o patrão à peonada A raça ainda firma o garrão Porque essa xucra tradição Não há maula que governe O Rio Grande é puro cerne Pelegueando a evolução.