Um olhar para a tropa
Extraviando o chão sulino Em cada sentar de cascos E o costeio dos carrascos São a sua única guarida A cruzada é a despedida. Não verá a mesma plaga Porque o fio de uma adaga, Mata a fome e cobra a vida
Talvez a boiada até saiba O fim desses corredores, Uma pataca em valores Ou o sangrador rebentado. Mas cada um tem seu fado, Destino ninguém renega E o que o futuro carrega Aos olhos de Deus, é passado
E o tempo de gado alçado No velho pastoreio jesuíta Já é memória proscrita De uma liberdade orelhana, Sempre a vontade humana Com o teu destino na manga Ou a charqueada ou a canga, Entre uma adaga e a picana.
Por isso ele segue firme, No tranco assim conformado Pastando algum rebrotado, Regalo que a pampa aflora O tempo mais bueno é agora, Presente no instinto xucro, E se a vida tem algum lucro É no caminho que ele mora
Trotear ao rumo do fim É o preço da própria vida A morte espreita escondida, Pra um golpe certo na guela. Passo a passo ela nos nivela Pouco importa o que se faz E mesmo andando prá tras, Se chega mais perto dela.
E assim as tropas de outrora Seguiam desenhando estradas, Cortando as coxilhas, canhadas, Desse Rio Grande em memória Deixando em sua trajetória, Novo povoado em semente Em seu encargo inconsciente, De ser sinuelo da história.
Quanto caminho cortado Tempo feio, sol de janeiro, Sem tropa não há tropeiro Cada qual, uma incumbência, Desbravando nova querência Que o horizonte destapa Para ir forjando este mapa Enquanto tropeava a existência.
Se a boiada puxava a ponta Na marcha da integração, É mais que justa a menção. Na história dessas tropeadas E as suas imagens aplastadas, Conservam, apesar de gasto, O Rio Grande cheirando a pasto De tantas glórias passadas.
Desenvolveu-se o Brasil Por esses campos sem fim, Ruminando o mesmo capim, Partilhando do mesmo ofício Que à comitiva foi sacrifício, Ninguém discute ou renega Mas o gado é que carrega Triste sina de ser munício.
E foi o sustento de tantos Nas lides mais encardidas, Aos que gastavam as vidas Changueando de retirante, Garimpando ouro, diamante, Atrás do sonho empoeirado Que a cada sol derrubado Ficava sempre “pra adiante”
Segue no costeio o arrieiro, Homem rude e destemido, O desbravador aguerrido Um morador da amplidão Balanceando essa condição, Lhe toca um velho tormento Se a tropa ainda será tento, Tropeiro ainda vai ser chão.
No rigor de suas andanças, Empeçando a vida tropeira, O Coronel Cristóvão Pereira Decerto também desconfiava Aquela tropa que repontava Olhando-a meio com zelo Tinha alma sob o seu pelo, Que soga alguma laçava.
Por isso estendo um olhar Que me perpassa a retina E vejo essa tropilha teatina, Pealada por seu destino Talvez nosso gado sulino, É o Rio Grande abarbarado Ecoando num descampado, No berro de um boi brasino.