Uma Noite de Agosto
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Que noite braba lá fora ... Releio versos antigos, delatores de outros tempos, nos quais a alma bordava - Em tecidos de ilusões - sonhos em lindos matizes que pareciam tão fáceis de pateá-los de à cavalo.
Pico um naco devagar e o sentimento de xucro me faz crescer a garganta! Restevas de mocidade nas dobras do pensamento!
O meu cavalo arrepiado - Sob este teto de zinco que deixa escapar goteiras - as orelhas de ouvir longes e uma pata descansada, balança a linda figura na sombra que a lamparina - Movida ao sopro das frestas - esparrama no galpão.
Alguns jujos pendurados perto à cambona furada onde a corruíra fez ninho!
O cusco procura a volta por um lado, para outro - Dá uma puchada na terra - de um buraquito redondo - Que ele abriu perto do fogo - e se enrodilha de novo, como quem vira os pelegos e pega a volta do poncho se acomodando no catre.
O vento insiste, forceja ... - Um trago forte, outro mate - e uma pitada mais lenta!
Este meu poncho judiado - Um companheiro de sempre - e o par-de-botas molhado - Sola queimada do estribo e dos aros das esporas – fazem parte do cenário que o mundo bruto, lá fora, reproduz em preto e branco na tela humilde e soturna estirada em quatro esteios de cerne de coronilha.
Junto ao tição de espenilho a cambona ensaia um canto como pedindo silêncio!
Na velha trempe de arame - Meio cilhona do fogo - o sangrador vai tostando - como um remendo de morte na prova da estupidez – goteando lentos protestos como se a dor respingasse - Em lágrimas, pela vida – abrindo fumos de luto no frágil painel de cinzas entre o rubor dos tições!
Quedou-se muda a guitarra ao recostar nos arreios sua alma de vidala; Pois nos momentos de prece somente a quietude fala!
Pai nosso que estais no céu precisai vir aos galpões!
Nestes silêncios que tenho fico granando esperanças embonecadas há tempo nas hastes do coração;
Pois quem vive de à cavalo e tem apenas domingos, precisa enganar tristezas multiplicando as pisadas das quatro patas do pingo.
Quem pouco entende este mundo, cria basteiras em si; e procura arrinconar - Nas emoções contrariadas – amenidades vividas - Para iludir a razão – como quem usa um pelego, que foi sovado a capricho, pra moldar bem os arreios quando se aperta o cinchão.
A chuva timbra o agosto com ganas de arrasar mundo, e os cinamomos corpeam como quem tenta escapar de punhaladas que o vento - Com planchaços de friagem lhes acaba de acertar! A casuarina repete o que aprendeu com os ventos em consertos milenares;
Qual um músico no escuro - Com dedos encarangados - sóbrio, nostálgico e só, tocando em flauta dolente a melodia que o tempo escreveu na partitura alongando a nota dó!
Pai nosso que estais no céu, fazei voltar as estrelas e as luas brandas, inteiras -Refletidas nos serenos – entre os mágicos aromas que a primavera semeia nos pastiçais destes campos.
Trazei de volta a alegria dos cardeais abrindo o canto entre galhos florecidos… e a ingenuidade festiva dos cordeiros retoçando sobre os trevais das ladeiras…
Que noite braba lá fora… componho o mate e prossigo mirando a vida, de em pêlo, -Tranquear em rumo confuso- no lombo duro do tempo!
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