Êxodo – Rafael Machado
14º Bivaque da Poesia GáuchaPublicado em
Talvez quem ouça não creia mas aquele caserio plantado beirando o rio, sujo por conta das cheias, ... De primeiro foi rincão ou como queiram: Querência! Nos usos, na convivência, na aparência e povoação. Os ranchos - barro e capim - tal como agora discretos guardavam talvez dez metros um do outro, algo assim. E um povo, tenho pra mim, acostumado ao pesado dos pés e mãos calejados mas d’uma alma sem fim. Seus homens eram do rio, da mata e seus luares... Suas senhoras dos lares, das tranças de lã pra o frio. Crianças eram bondade, brincavam sem contratempo já os mais maduros exemplo de vida e dignidade! A terra - velho elemento - na sucessão de culturas hora ofertava fartura nem tanto n’outros momentos, Quem soube domar seus ventos co’as mãos da perseverança plantou sonhos... Esperança. Colheu frutos... Alimento. Ainda assim, de repente, como da noite pra o dia velhos costumes, manias, acordaram diferentes. Passaram-se poucos anos e muita coisa mudou. Desse pouco que sobrou sobrou muito desengano. Veio seca, veio enchente, todo um ciclo, se conhece, e o campo por mais que desse nunca dava o suficiente. Nisso a cãibra pertinente do tempo- realidade - apontou luz de cidade como norte pra esta gente. Findou-se a vida tranqüila e quem ladeirava estradas passou a margear calçadas no aperto brabo das vilas. Era o mundo - de mudado - aprisionando em encerras os nobres filhos da terra para sempre desterrados! Sei de tudo isso, pois passei aqui quando potro; chibeando d’um lado à outro, tropeando mulas e bois.
Para quem viu o que foi todo esse caserio, plantado beirando o rio, é triste vê-lo depois!
Parece que tenho areia nos olhos ao ver vazio todo esse caserio... - Talvez quem ouça não creia!