Alma em Verso
Poesia

florêncio

Vaine Darde

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Um moço de fina estampa, Dom Quixote de la Pama Lá das bandas do Imbaá, Passava a noite no campo A prosear com as ovelhas Enquanto contava estrelas No meio dos pirilampos.

E porque “pensava pouco E não tinha serventia, ” Florêncio era só poesia Mas diziam que era louco. Em seu mágico delírio, Sem ligar para os afrontes, Bebia o licor da noite Na taça frágil dos lírios.

Nas madrugadas de lua Se acampava na coxilha Delirando maravilhas Da geografia chirua; Qual se ouvisse o lamento da brisa nas casuarinas, Nessa visão que alucina E acende luzes por dentro...

Andava sempre ao relento Sem ter cuia nem ter mala Fazendo tenda do pala Para se abrigar do vento. E, assim, em seu intento, Não tinha qualquer dilema Pois Florêncio era um poema Em constante movimento.

Penso que era encantado O seu jeito diferente E por isso aquela gente O chamava: desvairado. Sei que ainda alguém discorda Porque eu não pensava assim Pois ele cantava pra mim Tocando um violão sem cordas.

Olhava com tal fulgor Que até hoje o que me intriga Era me chamar de amiga Com frases tontas de amor. E lá naqueles confins De distâncias infinitas Tornava a vida bonita Fazendo trovas pra mim.

Florêncio era mesmo estranho Mas se aquilo era loucura: Nunca vi tanta ternura Num par de olhos castanhos! Era doce de escutar... Pois sempre que me falava Continha mel nas palavras e luz de estrelas no olhar.

Se era louco, era assim: Dessa loucura divina Em que o homem se ilumina Pra ser mais um querubim... Tinha o dom da fala mansa E, talvez, por ser poesia Levava flor pras gurias E bala para as crianças.

Florêncio, por ser tão puro, Forjou seu próprio lume: Um vidro de vaga-lumes Que bordava luz no escuro... Era estranha aparição O seu vulto noite afora Indo acender a aurora Com as faíscas na mão...

Que louco era Florêncio Ao ter crises de poesia, Fazendo o parto do dia E escutando o silêncio... Mas ninguém sabia nada Pois as pobres criaturas Confundiam a loucura Com a razão iluminada.

Ele a penas transitava Por algum sentido inverso Vivendo noutro universo Que a gente não decifrava, Sem rumo pelos caminhos Inventando itinerários Com seu jeito visionário De quem sempre foi sozinho...

Ás vezes, vinha a cavalo Num galope pacholento, A transpor luar e vento Seguindo o canto dos galos. E, sempre a mesma atitude, Parava por um momento Pra falar com o cata-vento E beber o céu no açude.

A mim me importava pouco O que dizia o pessoal, Pois nem sempre o anormal Tem qualquer coisa de louco. Diziam que era demente No seu andejam disperso, Porém Florêncio era verso Nascido em forma de gente.

Então se fez o destino daquele doce marmanjo Com um sorriso de anjo e coração de menino. De tanto vagar ao léu, Florêncio que anjo era, Em noite de primavera, Decidiu voltar pro céu.