Fogueteiro
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Mas oigate vida “braba”! Que profissão desgraçada... Era um forte e, no entanto Vivia a margem da sorte. Pois nos bolichos da aldeia Ninguém bebia em seu copo, Ninguém lhe dava um “saludo”, Ninguém lhe ofertava um trago E ninguém lhe oferecia Uma palavra sequer. Ninguém andava ao seu lado Ninguém entrava em seu rancho E nunca em sua vida amarga Alguém lhe chamou de amigo...
Mas oigate vida “braba”! Que profissão desgraçada... Trabalho, choro e silêncio Nesta vida amaldiçoada, Era apenas o que ouvia... O chamavam “Fogueteiro” E de “coveiro” também.
Num trabalho repetido Abrindo e fechando covas O fogueteiro era um morto Igual aos que sepultava... Por isso em sua vida amarga Nunca tivera um amigo.
Numa noite, fria, escura Como a sua solidão, Pressentiu algo de estranho Rondando seu rancho tosco... Até que ouviu um barulho De cascos em atropelo E uma voz, quase um gemido Num murmurante – “Ó de casa”...
Pulou do catre num upa E colou o ouvido na porta E na escuridão do rancho Com a adaga desembainhada, Esperou a voz outra vez... Houve um espaço de tempo Até que a voz novamente, Agora um pouco mais clara, Sussurrou no “Ó de casa” E completou: - “Meu amigo, Eu venho meio ferido E uma patrulha me segue...”
“Amigo? – pensou o coveiro... Se eu nunca tive um amigo.” Mesmo assim destravou a porta E pulou para o terreiro - Apeie no mas, parceiro que eu escondo seu cavalo...
- Gracias, amigo, e desculpe Talvez lhe traga a desgraça... Mas recebi um balaço E está sangrando demais. Quem diria, num segundo, Fogueteiro e forasteiro - Amigos desconhecidos - Abraçados no socorro...
Entraram, e sobre uns pelegos Deitou o ferido de lado Para que o sangue estancasse E com um poncho lhe tapou... Levou o cavalo pra o mato E voltou pedindo a “bugra” Que esquentasse a cambona Com uma erva qualquer A bugra era a sua mulher, Que nem ao menos falava, Só sabia obedecer...
Quase a porta veio abaixo Com as batidas de um milico... -“Che Fogueteiro, te acorda! -“To acordado, patrão!” -“Por acaso não ouviste alguém passar em disparada no rumo do Arroio Vau?” -“Por certo que não, patrão, e se ouvi nem me dei conta são tantos os contrabandistas que vivem atalhando aqui...” -“Bueno, mas abre teu olho que o índio é mui perigoso.” e gritando para os outros: -“Bamo simbora, pessoal, que o bandido se escapou...”
A noite ainda ia alta Quando o proscrito se foi, Não sem antes abraçar Seu estranho benfeitor... -Até a volta, meu amigo! Talvez um dia apareça Pra lhe agradecer melhor. Gracias, gracias, amigo! Repetiu por muitas vezes E se foi como chegou Sem dizer pra onde ia.
Talvez, quem sabe, queria Morrer bem longe dali... O Fogueteiro ficou Pitando, olhando a distância Com algo assim mui estranho Lhe cutucando a consciência: Será que não fora um “maula” Abandonar um ferido Solito num corredor?
Que importa se era um bandido... Ele bebera em seu copo Deitara nos seus pelegos Debaixo daquele teto Coberto de Santa-fé E lhe chamara de amigo No abraço e no adeus...
Se encaminhou ao potreiro Em busca do malacara. Encilhou, ao tão depressa Porém com muito cuidado; Botou a adaga entre os pelegos E sem dizer onde ia Falou pra bugra: “Já volto”, E se foi seguindo o rastro Que o forasteiro deixou...
Houve um clarão na distância Do tiroteio cruzado. Depois um baita silêncio Desses que anunciam a morte...
Foram encontrados dois corpos No corredor da tapera: De um sabiam quem era O outro? Desconhecido. Sim era o Fogueteiro, Ao lado do seu parceiro, Único companheiro Que lhe chamara de amigo.