Olhares da Alma
Quando a alma se escancara e abre as porteiras do ontem, Meu olhar busca horizontes pelos rumos que imagino, Sigo no cabresto do tino, rememorando paisagens, E relembro as imagens que eu olhei quando menino. Quando olho vejo os campos, se não olho eu vejo igual, Pois meu olhar, afinal, não vê só coisas reais, São paisagens imortais que emolduram meus olhares, Meu olhar busca os pilares d’aquilo que não vê mais. E neste olhar ilusório, onde enxergo o meu rincão, Vejo um rancho e um galpão, uma família e a peonada, A ganância desregrada, com “olhares de cifrão”, E um projeto em formação, sem olhar ou previr nada. Hoje estou desorientado, olho e não acho o meu rumo, Picaram a corda do fumo, o charque nem é charqueado, O mate está “adocicado”, a “canha” já não é pura, O benzimento já não cura e ganância não é pecado. Olho longe e não encontro a tropilha sobre o pasto, Já não vejo alguém no basto e no selim já nem falo! Transformaram o cavalo em potência de motores, Nesta troca de valores, o “pealador” levou um “pealo”. Meu olhar corta as planuras, campeando reminiscências, Dá oh de casa em ausências, nem mesmo as almas respondem, Procura e não acha aonde tá o rancho em que criado, Como abrigar meu passado se até as taperas se escondem? Quem viu o Rio Grande antigo, bem de perto como eu vi, Fica olhando por aí, sem entender tais preceitos, Pois se deram o direito de arrancar nossas raízes, E plantar novas matrizes, sem rever velhos conceitos. E no reponte da saudade, vou ruminando esperanças, Hoje só restam lembranças, pois olhando já não vejo, Imaginando eu revejo meu pago como era, Há um rincão sem tapera, no olhar do meu desejo.