Alma em Verso
Poesia

Dois Xirus

Gonçalves Chaves Calixto

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Ali naquela coxilha, Perto daquele capão, Tem uma cruz de facão Simbolizando esta história. No tempo em que uma vitória Quando dois guascas peleavam, Era confiança no braço, Vergonha... estava no aço... Do facão que manejava.

Este fato aconteceu No bolicho do seu Chico. Quando me lembro “Xô Mico” Parece mentira minha Que eu assisti aquela rinha Num domingo de sol quente Quando dois “Índios” em seus “Potro” Sem nenhum conhecer o outro “Bolearam” a perna na frente.

Entraram de porta á dentro, E se oitavaram no balcão, Por farra um puxô o facão E bateu contra a parede, Dando um grito, tô com sede Me dá uma canha vivente... O outro ouvindo o estouro Disse: Isso é desaforo, Que ninguém faz na minha frente.

E já arrancou da cintura Um facão deste tamanho E saiu abrindo lanho Sobre o outro indiosito Que se defendeu bonito E já pularam porta a fora Do tirador voava os fléco, E bem na porta do buteco Ficou um pedaço de espora.

Se espalharam os cavalos Que se encontravam na frente Aquele monte de gente Foi se espalhando prós lados E os dois índios grudados Num duelo de sair lasca Ninguém apartava a luta Porque ali era a disputa Da raçla e fibra de um guasca.

Cruzaram num corredor Se foram “p’rum” descampado O pessoal ficou parado, Ninguém falava, apreciando, E os dois facões relampeando Batiam pra lá e pra cá. Se ouviam os ferros tinindo E os dois se cortavam rindo, Como em brinquedo de Piá.

Subiram pela coxilha Desceram num canhadão, Subia poeira do chão Batia carqueja ao peito E os cuéras do mesmo jeito Nesta luta encarniçada Se ouvia trovejar os ferro Mas não se escutava um berro De dor de alguma pancada.

Descambaram na coxilha Só se escutava o barulho Voava grama, pedregulho... Que chegava tremer a terra Parecia até uma guerra Estes dois guapos brigando O povo aguardava ansioso Pra ver qual o vitorioso Destes dois xirús peleando.

De repente parou a luta Voltou o silêncio ao normal. Foi se chegando o pessoal, Pra ver o que tinha se dado. O povo ficou pasmado Por ver os cuéras de tal jeito, Tinham ambos se matado Morreu os dois abraçados Com o facão fincado no peito.

Ali não houve vitória Cada um mostrou sua raça, Morreram com ar de graça, Que o povo se admirou Muita gente comentou Que talvez riram morrendo Há um mistério verdadeiro Qual dos dois feriu primeiro Que ninguém ficou sabendo.

Até hoje ninguém soube O nome das criaturas, Cavaram as sepulturas Porque era obrigação, Fizeram a cruz com os facão, Amarrada a tento cru. Uma só cruz para os dois; E escreveram depois “Descansa aqui dois xirus”.

É ali naquela coxilha Perto daquele capão; Que tem a cruz de facão, Simbolizando esta história, Do tempo que uma vitória Quando dois guascas peleavam Era a confiança no braço A vergonha estava no aço Do facão que manejavam.