Alma em Verso
Poesia

Nunca Mais

Gonçalves Chaves Calixto

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Depois que deixei o campo E me embretei na cidade Esta malvada saudade Nunca mais me abandonou Vai junto pra onde eu vou Machucando sem clemência Eu sinto dentro do peito Um tirão de vez em quando Como um laço me puxando Pra que eu volte pra querência.

Eu nunca mais fui o mesmo Depois que vim do rincão. Não tomei mais chimarrão No galpão com a peonada. A tropa passar na estrada Também nunca mais eu vi Sinto saudades dos campos E do ranchito que eu morava O riacho que eu pescava No meu tempo de guri.

Nunca mais dancei fandango Num rancho de cão batido. Não escuto o alarido Da peonada galponeira Nem o ranger da porteira Numa mangueira se abrindo Quando lembro do meu pago Eu fico horas pensando Na minha mente enxergando Do Rio Grande, surgindo.

Nunca mais tive alegria Que lá na campanha eu tinha. A querência que foi minha Foi por mim abandonada. Deixei a estância... a invernada, Pela vida da cidade As vezes grito...Por quê? Que cometi esta loucura São erros que a criatura Comete na mocidade.

Nunca mais parei rodeio Na coxilha verdejante Hoje reponto por diante A tropa do pensamento Esperando algum momento Que eu possa voltar de novo Para rever os meus campos Da minha terra querida E o resto da minha vida Viver junto do meu povo.

Caramba que china maula É esta tal de lembrança. Eu que fui desde criança Taura, quebra de verdade, Vim me embretar na cidade Qual torito desgarrado Na carreira da vida Perdi o primeiro arremate Dei paleta por empate E pense que tinha ganhado.

Las pucha, como o destino, Transforma a vida da gente. Aqui tudo é diferente Dos costumes da campanha O povo não acompanha As coisas da tradição, Não vejo nas noites grandes O piscar do vagalune Nem sinto o mesmo perfume Dos campos do meu rincão.

Chô Mico... Nunca fui destes, De me entregar de primeira. Filho de raça campeira Criado sem ter patrono Da minha vontade sou dono, Fui assim desde guri Qualquer dia saio a trote Qual um gaudério sem rumo, Chô Égua... Não me acostumo, Com a vida que levo aqui.

O índio que nasce solto Não pode aceitar maneia Céu coração corcoveia Num gesto desesperado. Pedindo rédia ao passado Que lá tão longe ficou Eu vim pra cá de visita Jamais pensei em ficar Quando pensei em voltar A vida não me deixou.

Eu não sou contra o progresso Porque sei que é necessário Não quero ser mercenário Pois sempre fui patriota. Mas quem nasce lá na grota Sente saudade de tudo, Fui guasca criado solto De queixo erguido e altivo Desses de sangue nativo Morro de velho e não mudo.

E se um dia der de jeito Quero sair deste brete. Quero arrepiar o topete Cortando léguas de chão De volta pro meu rincão Quero matar a saudade E se isto acontecer Eu campo á fora me solto Lhes digo, “nunca mais volto Presta vida da cidade”.