O Julgamento
O tempo aqui é parado, dá a impressão de não andar! O medo vem me espiar pela janela gradeada.
Parece-me que dá risadas do meu semblante de dor, do meu estado de horror atrás das portas fechadas.
A solidão e o escuro sufocam a alma da gente, corroem o corpo e a mente de um pobre pai de família, que um dia saiu da trilha: - disseram os engravatados - burlou as leis do Estado pra alimentar uma filha.
A moral rompe os grilhões quando a miséria se perpetua, e nenhum bom senso atenua o pavor de quem vê a fome, qualquer vergonha se some pra ceder lugar ao instinto, ainda mais, se o faminto tem o nosso sobrenome.
Aquela insônia chorosa na noite clara, de lua expunha a verdade nua, e, cobrava uma atitude; se a fome chega amiúde, e se aquerencia nas casas a prudência abre asas, e as reações ficam rudes.
Botei o cusco em alerta, e uma adaga nos arreios. Desejei o gado alheio do plantel do ex-patrão, mas, escutei a razão e desisti do pensado; seria um pai fracassado mas, não seria um ladrão.
Escolhi então a caçada de um “tatuzinho mulita”, seria a ração bendita, quiçá, pra toda a semana!
Mas, a sorte é mui tirana, se um pobre já anda mal pois, uma Patrulha Rural rondava o brete em campana. -“Teje preso seu larápio”!
Gritou-me um brigadiano. Te acuso de fazer dano e dar prejuízo ao ambiente! Mas, o que sabe um vivente dessas lorotas de livros?
Se, deixo o mulita vivo, morre, então, a minha gente.
Nomearam-me sujeito ativo do meu próprio desespero; cercearam-me com esmero, qualquer direito de defesa.
O juiz afirmou com certeza: - O indivíduo é perigoso - e que eu era um criminoso, por lesar a natureza.
Mas, que natureza, parceiro, que me fala o entojado?
Será que também sou culpado da fome da minha família? Eu nunca afrouxei a vigília nas minhas obrigações de pai, mas, a vida, às vezes trai e tu cai numa armadilha.
Já ouvi falar pelo rádio, que há mandantes “salafras”, desonrando as bombachas, pra viverem de falcatruas.
Se, o mal do mundo acentua só porque matei um tatu a natureza pra mim é tabu, talvez, eu jamais a usufrua.
Descobri que os mais fortes, se adonaram de quase tudo, e cobram um preço graúdo daqueles que estão famintos, que há também os distintos da fome tirando proveito, e que, sempre tem um jeito do galo explorar os pintos.
Se me rotularam bandido só por saciar minha prole, talvez, um dia eu esmole um punhado de dignidade, e implore pra sociedade o parco sustento da família, ou troque a vida de uma filha pela minha falsa liberdade.
Quem será mais criminoso neste cenário lastimável?
Serei eu: o peão miserável, ou, o brilhante magistrado? Quem se diz bem educado e condena a miséria alheia, tem as chaves da cadeia, mas, se abraça ao pecado.
Será que o senhor sabido socorreu a minha filha?
Será que leu a cartilha do amor e da caridade?
Pois, um juiz de verdade há de ser condescendente, e não culpará um inocente só por ter necessidade.
E aqui estou contando os dias, tentando entender o meu crime.
Pois, mudou-se o regime que Deus criou para o homem.
A natureza saciaria a fome de quem precisasse alimento, e, não haveria julgamento praquele que mata e come.
Agora, entendo o meu erro: porque me julgam perigoso:
O dinheiro é obra do “Tinhoso”, e, O Senhor criou o sagrado! Enquanto, os necessitados, pagam por serem plebeus, matam uma criatura de Deus, os ricos roubam do diabo.