O Balseiro do Uruguai
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Na alma, o gosto pela querência, Estampa de xiru curtido pelos muitos janeiros. Melenas e barbas bem compridas... Já embranquecidas pelo rigor do tempo. O tempo! Este cavaleiro errante que não Perdoa nem o mais guapo dos homens.
Sentado ao pé do fogo, Olhar parado, Perdido no infinito do estralar das brasas. Mãos enrugadas, trêmulas, que ainda encontram Forças para amparar a cuia De um mate já um tanto lavado. Busca lembranças de um tempo de glórias Que com as águas, talvez... Foram-se embora pelo rio.
Aquele caminho de lembranças, Herói anônimo de sacrifícios e perigos Na construção deste pago Já foi balseiro do Rio Uruguai! Quando as águas alvoroçadas Anunciavam o “ponto de balsa” E os sarandis faceiros das barrancas Pealavam o prático à lide De ginetear os mais ariscos pinhos Deste rincão.
O prenúncio da enchente alegrava E enchia de esperança o balseiro. Esta china ventana, que trazia desgraça Mas, também... A vasa para O domador de toras ganhar o pão.
“Oba viva, veio a enchente o Uruguai transbordou, vai dar serviço pra gente.”
Conheci como ninguém Todas as manhas daquele rio; Cada corredeira, cada salto e cada volta Balseou uma vida inteira, total, por gosto no más!
Quantas idas e vindas naquele manancial de vidas corredor de aventuras, solidão e... de mortes. Só o poncho pra proteger Da chuva e do frio, De negras noites assustadas Sem nem um palmo Para enxergar...apenas o eco Da barranca pra se guiar,
O ressorjo é repentino e traiçoeiro. O salto grande é próximo, a poucos galopes... “Será que vai dar pra passar”?
Mas não importa pois, a balsa precisa chegar!
A tropeada é de grande perigo, Por isso, a coragem do ginete das águas, Tem que ser muito maior. Ah! Este bravo da costa do Uruguai! Que ao nascer naquele fundo de campanha, Foi forjado com a mais gaudéria estirpe Dos imortais desta terra.
Que nada... nada o afastará Da sina de balsear!
Mesmo que o charque se escasseie, E o mate... fique mais amargo Quando a saudade do rancho Cincha forte o coração do andejo. Os dias que lentamente Se passam Uruguai a baixo Parecem uma eternidade. As plagas de São Borja Ficam mais distantes pro balseiro...
Mas não importa, pois, A balsa precisa chegar! Na volta, a cavalo na saudade È quase pior, Lembra dos companheiros mortos Nesta medonha lida de balsear, Lembra da prenda amada Que na estância ficou a lhe esperar. Lembra do cusco amigo que De olhos compridos... Viu o dono se afastar. Mas, a guaiaca está farta, Vai garantir o sustento dos piazitos Até outra enchente voltar!
E assim João Canoeiro viveu Até o peso dos muitos anos chegar. Mas, com eles... Um bagual matreiro E por demais de veloz chamado progresso Nestas terras apontou, Sem sentimento, sem alma... Botou cabresto de couro trançado, no balseiro, Palanqueou bem firme Na invernada do esquecimento e... Jamais soltou.
Motores bem domados e roncadores Invadiram as coxilhas e pampas E toda a querência se tansformou! Hoje... A vida mudou. O tempo passou, O comandante das águas morreu, O sonho acabou... E a balsa do prático... A balsa... Nunca mais rodou!