Pelos Caminhos das Cheias
Publicado em
Mas “oigate” mês de março Caborteiro e enchuvalhado ! Chorando léguas de mares Sobre os destinos molhados!
No chão submerso Das vilas ribeiras, Apenas reflexos de um céu flanescente, Como se no fundo Não houvesse o imundo Lodo das enchentes !
O rio, esse eterno andejante companheiro, Que sempre venerado e devorado Na fome insaciável das cozinhas, Agora, Bem mais rebelde, Tem olhos de fundos d’água Pros alicerces fincados No desnível das barrancas Que, como ninhos de gaivotas, Prendem casas ribeirinhas.
No suave embalo das águas O barraco balança Uma antiga esperança Que bóia no leito Do Ibirapuitã...
São todos veleiros dos mares rurais Que um dia aportaram No cais da cidade Fugindo de um monstro chamado descaso Que a lei dos mandantes Não quer derrubar !
... e mais velas e velas Atracam no porto Inundado as barrancas, Que o rio, enfurecido, Não hesita em afundar !
No rol das notícias A imprensa comenta A cidade e o estado decretam o estado, E a calamidade se torna mais pública.
O rio vai ganhando águas Redemunhas... redomonas... E as casas que são tragadas Viram barracas de lonas !
Nessa vida molhada De “bóia” doada, Quem tem quase nada Tem nada de vez !
De olhar absorto, de longe, observam Os barracos que dançam Uma antiga esperança Afogada no leito Do Ibirapuitã...
Arrastam no barro, Além da miséria, A safra singela De inço e favela Que a dor da seqüela Colheu na cidade!
As unhas da águas Groseiam os flancos Sugando da terra Milhares de apojos, Qual taipa de erva Num mate lavado, Virado e encilhado, Desbruga pro bojo!
Se tornam afogados Da curiosidade Que a luz da cidade, O progresso e a vaidade Levaram à porteira dos ranchos rurais !
Têm changas na pesca, Mulheres que passam as tardes nas beira Gastando os dedos da mãos lavadeiras Em linhos de roupas Que nunca são suas.
Além, onde as águas sugaram o horizonte, Os olhos encontram, num mundo perdido, O brilho do verde no campo infinito De ternas lembranças
E aquela visão do gado correndo, Do laço voando, Do taura gritando Que a rêz está presa, Desata um soluço De dor e saudade Que as águas carregam E amplificam em ribombos No encontro das vagas !
O pingo no rosto da lágrima enchente Transborda na alma Que triste acompanha O barraco que dança Uma antiga esperança Que bóia no leito Do Ibirapuitã...
A tarde encharcada De tanto aguaceiro Se abranda na noite De “miles” estrelas Que acendem luzeiros No sol da manhã ... então, lentamente, As águas retornam E tomam seus rumos Em busca do mar... Deixando um rastro De sangue barrento Grudado nas botas Que tristes retornam...
E as réstias que emanam Do brilho das águas Acendem fulgores Nos olhos molhados.
A tal de esperança Que sempre renasce Na volta do sol, Amassa no barro Que a enchente deixou Os novos tijolos De força e coragem De quem, certo dia, Já foi um ginete Com auras campeiras De um bom domador !
A luz é divina E divino é o brilho Que o sol extravasa Nas vistas barrentas Mirando prás águas Que levam as mágoas De mais uma enchente !
Então segue a vida Normal como antes... Mais um alicerce, O prego na tábua, O zinco por teto...
O sonho bonito De ser proprietário De um rancho no povo Explode, de novo, No peito do peão !
Até que, depois, No ano que vem, Com as águas da chuva Do fim do verão, Começa o martírio De todos os anos...
...e, então, Novamente, O barraco balança Uma outra esperança Que deve boiar No leito profundo Do Ibirapuitã...