Alma em Verso
Poesia

Do Que Ficou pela Casa

Joseti Gomes

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Porteira aberta pra trás... Saltaram vultos dos cantos das paredes da morada. Eram mudas as conversas. Haviam olhos nas frestas que entendiam de estadas, de partidas e chegadas, de rangidos de assoalho marcados pelos chinelos... Fiz meu lar naquele rancho. Dei vida nova às paredes, troquei móveis e cortinas, troquei a cor dos retratos. Botei meu choro de lado ao enterrar a semente na terra que se fez ventre ao dar à luz para a Lua que brilha inteira na casa. Voltei a sentir perfumes na brisa morna das tardes... Ouvi os passos cansados cruzarem a minha frente, senti duas mãos presentes junto à cuia, num pedido... A avó mateava comigo no doce dessas lembranças em cada gole do amargo. Meu olhar só vê fumaça do outro lado da cerca... Existem tantos mistérios... Os fios de arame farpado permanecem esticados, numa vigília cruel... São crinas formando véus tais cortinas estendidas ceifando os raios do sol. O céu se fecha em exílio pra ruminar verso e cordas... Os catres ficam pequenos pros sonhos de outros mundos... Quem dorme em sono profundo invade o lado vizinho, vai pousar em outros ninhos, visitar outras moradas que, um dia, já habitou. Folhas secas debruçadas no peitoril da janela... Escada com mesmo riso dos tempos daquele abraço, e o medo do meu cansaço, na estação das flores mortas, se entrega aos braços da porta que guardam sinais de afago no luzidio dos carinhos... Nos rastros de uma avó a Lua mede seus passos... Sombras de frente ao rancho sabem de atalhos secretos... Ficam perguntas, por certo, no orvalho do despertar e um mate pra celebrar a presença permanente do que ficou, pela casa...