Alma em Verso
Poesia

entre a luz e as picumas

Juarez Távora Pacheco Fialho

Publicado em

Essa estampa de carreta Rangendo acorda caminhos Desperta aves nos ninhos Feito mística oração... Lenda viva aqui do chão Nos mais rústicos modelos Também já foste sinuelo Antes de ser tradição.

Esta história vem de longe Neste Rio Grande nativo Somos testemunhas vivas Desta epopéia sagrada... Parceiros de mil jornadas Sob a quincha deste céu Agora somos troféus... Cantados nessas pajadas.

Povoeiros tomem tenência Da importância que temos Pouco importa se vencemos Lutamos sem preconceitos Nos corredores estreitos Chegamos sempre primeiro Pois carreta e carreteiro São lascas do mesmo tronco;

Quando o café de cambona Aromava as madrugadas... Eu, carreteiro cismava... Sobre as coisas da vida Os piás a prenda querida Musa eterna deste andejo Que habitava os desejos Nessas quarteadas compridas.

Matutava sobre os preços Dos mantimentos da carga Milho, feijão até "fava" Precisava dalguns "pilas" Até empeçarem as esquilas Com parceiros de comparsa Embandilhados quais garças Na primeira comitiva...

"Maria mole", em flor... Fome espreitava por perto Campos ralos e desertos O inverno, enfim se vai No rastro nada mais hay Só parcas sobras guardadas Se as tulhas estão raspadas A indiada, toda já descai.

Com a "picana" no ombro Sempre assobiava feliz Matava alguma perdiz... Pra "bóia" do dia inteiro E lhes garanto parceiros Que repontava improvisos Cantar por certo é preciso Até mesmo a um carreteiro.

"Carretas já são reliquias" Enfeitando os para peitos Uma arranchou-se no peito Deste eterno carreteiro... Quem sempre domou tambeiros Hoje nem doma as saudades Que gavionam nas cidades Campeando guapos campeiros.

Quem traz guardados em si Esses ricos mananciais... Verdadeiros cabedais... Das entranhas duma raça Que gerações entrelaça Entre o hoje e o amanhã Entre a luz e as picumãs Em cada noite que passa.

Arrasto os pés no asfalto Em tempos de hoje em dia Mas guardo ainda a magia De ter vivido esse tempo Curtido pelos relentos Lado a lado com brasinos Bendito seja o destino Que me fez irmãos dos ventos.