Tropeiro de Minha Infancia
Guardo na moldura dos meus olhos A imagem de um tropeiro Velho peão carreteiro Que tantos rastros deixou... O meu avô foi um tropeiro Que muito me ensinou. Das longas prosas à tardinha Quando a noite avizinhava Volteando um fogo de chão, Eu dormia de mansinho No colo desse velhinho Que sua história contava...
Exemplo de vida e lida Esse velhito amoroso Que me contava seus causos Das noites fitando o céu Guardando tropilha solta Por debaixo do chapéu! Um cochilo uma lembrança, Muita saudade dos seus Recolhida nas distâncias Guardadas na mão de Deus!
Muitas vezes esse tropeiro Com o olhar serenado, Lembrando o tempo passado Das mochilas, dos cargueiros... Do arroz de carreteiro Do charque gordo picado, Um chimarrão junto ao fogo No velho poncho enrolado... E eu o escutava em voz alta Meu Deus, como sinto falta Dos causos que ele contava!
Dizia-me das venturas Dos tropeços e carreteadas... Das noites lerdas de sono Dos lumes dos arrebóis... Troperiando chuvas e sóis Pras os horizontes sem dono E cada vez mais distante Rastreando ao trote dos dias Buscando o sonho longevo Muito além das sesmarias!
A vida, dizia-me ele - Tem belezas infinitas Mas também horas aflitas Guarde contigo os conselhos Desse velho que estradeou Por esse pampa gaudério, Que cresceu sobre o lombilho De um potro corcoveador, Desde os tempos de criança Sem nunca perder o entono, Fiz dos arreios meu trono Pra te deixar essa herança!
- Desbravei tantos caminhos Curtindo o vento pampiano Sem refugar tempo feio Troperiando a despacito... No imenso rodar do tempo Busquei a rosa-dos-ventos Entre o sol e o luar, Vi o progresso chegando Vi meus cabelos branqueando Vi prantos no meu olhar...
Vi as tropeadas findando E as velhas carretas tortas Em tantas idas e voltas A um museu recolhidas Como partes repartidas Que não mais posso buscar... Às vezes, a ensimesmar Vejo a tropa enfileirada Nas auroras-madrugada Com meu pingo a me chamar...
Ainda ouço os soluços O gemido das cambotas Velhos balaios de tropas Cangalhas sem serventia! Pois o progresso levou Aquela estampa bravia. E o tempo se encarregou De alongar os horizontes E encurtar os meus passos... De desbotar-me as retinas Tirar-me a força dos braços.
É nesta moldura que vejo Meu avô mirando os longes A cuia aquecendo a mão. As botas gastas de chão Um par de esporas caladas, No galpão dependuradas Por desuso do garrão...
No soluço das goteiras E eu me vejo um piazito Ouço a voz desse velhito A quem devo o que hoje sou. E por onde que ficouO velho tropeiro de outrora? As tropas foram-se embora O progresso as deserdou.