Alma em Verso
Poesia

3 . Corrida de Lebre

Lauro Antônio Corrêa Simões

9º Bivaque da Poesia GáuchaPublicado em

O rincho em tom de clarim. Nesse tom característico Dos baguais que se iniciam Em seus primeiros galopes. Têm o jeito vacilante Do potro em primeira “pega” Para a lida dos arreios. No seu trotar cadenciado Ritma as puas do ofício, Mais cantoras nos careios Que armas de sacrifício De um domador que se preza

É assim que reprincipia A cada manhã que nasce, No chiar de uma cambona, No rubro de um cerne em brasa Ou, quem sabe, simplesmente Nalgum “causo” de planura. No gole da água pura Que a pipa-d’água conserva Gelada da brisa andeja Que passeia na ramada.

No universo do campo O homem faz seu caminho Pois ninguém anda sozinho, Mesmo que assim pense estar. No grito de um quero-quero. Rosendo, o índio campeiro Que encilha um caborteiro Sempre tem de companheiro Jesus a lhe amadrinhar.

Há um sentido misterioso, Pra não dizer abstrato Em uma cerca-de-pedra Que corta um capão-de-mato. Talvez do fundo da História Pelos saraus das estâncias Ganharam a importância Da misteriosa aparência, Inexplicável à ciência Porque lhe falta a razão De se prender a um grilhão Mais do que corpo, a consciência.

E a camperiar no seu potro O Rosendo que prossegue Vendo à macega uma lebre De grandes olhos matreiros. Pena que dois bons lebreiros, Parceiros diariamente Tenham ficado à corrente Pelo nascer dos cordeiros.

Quem vive o mundo do campo Aprende que à singeleza É onde habita a beleza Que alimenta o coração. Na mais simples das figuras Que inesperada acontece, Uma visão resplandece Qual aurora de verão Na alma das criaturas.

Um lote de gafanhotos Guasqueia às patas do potro Que negaça mas, se ajeita De maneira contrafeita Querendo “tirá uma tóra”. Pra quem conhece essa hora A experiência é quem decide Se haverá o revide, Pois no momento mais conta Que a doma já quase pronta Não se perca por tão pouco, No gesto meio de louco De uma enganchada de esporas.

O rincho em tom de clarim Parece um “naife” cortando. No canhadão ecoando Aquieta o capão-de-mato. No meio do unhal-de-gato Parece que o lebrão fala E a sorrir vai dizendo: - Cadê os lebreiros, Rosendo? Neste varzedo de sala. Bota a correr o teu potro! Nem vais desatar o pala!

Mais um mês, quem sabe dois Porque sei tua morada. Carreira já confirmada Pra depois da parição. Petulância do lebrão Desfazer dos seus lebreiros. Diminuir o parelheiro Que ele nunca viu correndo.

Não sei se sou eu que entendo Pois se não diz, eu que penso Que apesar todo silêncio Sabemos que quem decide Qual será a cor do lenço. O julgamento, lhe falo É do Senhor de a cavalo Que amadrinha o Rosendo!