4 . Do Outro Lado do Rádio
Vinícius Antônio Machado Nardi
9º Bivaque da Poesia GáuchaPublicado em
Muito embora não tenha água, nem praia e tão pouco maré, tem alma de campo e estrada - o que deixa sempre o ouvido em pé-.
“Olha guri, pra tua mãe cabelos brancos”...
“Mas que barbaridade de letra bonita. Desgraça é este chiado lá no fundo. Maria... ô Maria... me traz um pedaço de bombril”
E lá se vai o aço na antena. O rádio em sua caixa morena, - molhado de tanto sol – pousa agora manso embaixo da figueira...
“Olha o dourado que bateu no espinhel... Traz a canoa que rio fundo não da pé”...
“Barbaridade! Hoje de tardinha vou pra cidade. Tem que deixar recado pra tia Quitéria e já aproveito pra trocar ideia com esse moço locutor...”
No dia seguinte...
“Alô dona Quitéria... Teu sobrinho Almiro mandou avisar que te espera no domingo - que vai ser um dia dos mais lindo – e que a ovelha gorda vai carneá”...
“ E não é que sai até uns versinho...”
O dia lindo da semana vira e revira em si.
Cai a chuva.
E leva a onda pro chão.
Enquanto isso, no bolicho...
“- Buenas... que baita viração. Isso é coisa da virge que anda solta. - Mas diz que logo volta o sol pro campo, segundo o moço da rádio e o homem da capital - Mas chê ... tu anda escutando essas bobage!”
E calam-se os gritos e pingos.
Do outro lado da sala com um sorriso matreiro nos lábios - e o parceiro embaixo do braço, já que é nobre artista do cenário – sai de cena o Almiro.
Volta pra lida que o cheiro da chuva é perfume raro no pasto.
“E agora, pra fechar a empreitada um baita verso do Jayme...”
Bzzzzzz, shhhhhhhhh...
“Em Brasília, 19 horas”
“Mas que diacho... Tinha que ser agora? Mas que deixasse pra outra hora As notícias lá de cima...”
E o rádio, pequeno parceiro, anuncia a vida do braseiro e singra na fronte um sinal: a lua já vai banhar o campo melhor é seguir de volta pro rancho que o dia já chegou no final.
Durante a janta, - retoçando as ideias – vem uma marca nova pra por vida na matéria.
No som alegre e pequeno bailam pelo rancho pobre os desejos- e as pernas – de um pequeno par de vidas.
Depois, cansada da lida, a Maria finge que não escuta, o último estampido do botão...
“E vamos encerrando nossas programações... Shhhhhhhhhhhhhhh, shhhhhhhhhhhhhhh”
E o rádio se cala.
Seu parceiro fica só, conversando com seus pensamentos. Escuta apenas a voz do vento - que já não carrega mais ondas em si-.
Silente murmúrio de campo, - será de sanga ou de rio?- recobre-se diante da vida - e também por causa do frio -.
“E lá se vai a vida, em cada noite escorrida. Mas amanhã bem cedo renasço - pois o rádio verga meu aço – me fazendo chorar e sorrir.”
E no primeiro pontear de luz - e de som, pra não perder o tom- ... descobre então que renasceu.
Sim, pois entre os zumbidos músicas, alertas e notícias, confesso amargamente que menti.
Almiro, que pena, não era eu, pois vim depois da magia que junto ao rádio se perdeu.
Mas se uma onda nova atinge em cheio meu ouvido - e me faz de novo perder o sentido- descubro que finalmente renasci.
Em seu balanço firme e eterno forte vergador de meu aço me vejo assim, correndo descalço e me revelo de novo um GURI.