O Payador e o Rancho
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Passei a vida cantando Como changueiro de tropa De mil donos diferentes E se fizeram rotinas Pelo corredor da vida, Muitas lutas sem vitórias Deste velho payador.
E neste mutismo amargo, Quanta lágrima escondi...
Sempre rumo do horizonte Buscando do outro lado O povoado da esperança, Eu me perdi nos amores Que tomei como remédio Pra o delírio solitário De quem sabe cantar.
Fiz da lua meu candieiro Para iluminar a insônia Da negra meditação...
E me derramei em versos Que é o universo da dor... Escutei no meu silêncio Cá bem dentro do meu peito, Todas as revoltas do mundo Deste meu mundo interior.
Mas nunca contei aos outros Quão duro foram os caminhos Por onde um dia eu tropiei... Bandeei a nado os arroios Que se interpuseram à ânsia, Que sempre tive em chegar.
E nos fogões galponeiros Cantei a luz dos brazedos Para esconder neste canto Toda angustia do cantor...
E neste mutismo amargo Quanta lágrima escondi...
Mas jamais me dera conta Que de meu lado, seguia Passo a passo, hora a hora Ao trotezito calado O mais velho dos tropeiros: O tempo tropeiro... O tempo!
Um dia cheguei à sombra, De um cinamomo distante E achei que era o momento De erguer meu rancho afinal. Seria meu fim de estrada! Meu verso, fecho de estaria... Seria afinal a glória De quem só soube cantar...
Mas de repente o destino Como um amigo gaudério, Vem me fazer um convite Pra tudo recomeçar.
Só que não viu do meu lado Como um cusco enrodilhado O tempo, velho e cansado Me pedindo pra parar
Olhei pra o rancho em silêncio Depois pra estrada distante, Por onde um dia eu cheguei... Me parecia mentira, Que eu teria que seguir, Foi quando o tempo falou:
Deixem ficar este velho, Não lhe obriguem a caminhada Está cansado demais. Não lhe tirem da ramada Seu recanto nostalgia Da solitária alegria De seu silêncio escutar.
Deixem ficar esse velho À sombra do rancho tosco, Que ele barreou com afeto E quinchou com emoção, Cada pedra, cada planta, È um verso que se levanta Na forma de uma canção.
Deixem ficar esse velho, À sombra do que ele amou, Seu rancho glória dos versos, Dos cantos que ele cantou.
Deixem morrer este velho, Como morre um payador, Ouvindo de um cinamomo, Outro pássaro cantor...