Maragato Louco
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Andava de pago em pago teimando em querer um lenço, mas diz que mais colorado do que boca de sangria. Assim, o pobre do Chico bebia por seu capricho, louqueando a falar sozinho.
Aos domingos, no bolicho, a uma ponta do balcão, olhava a todos com olhos de quem vê, não a figura, porém alma e coração. Os olhos vendo mais longe, nas distâncias encardidas que a vontade por desejo faz a memória gravar.
Às vezes o pobre Chico louqueava que era o chefete de grande revolução. Uma tala de coqueiro fazia às vezes de espada e ele imitava arrancadas e cargas e rechaçadas volteando a espada na mão.
Depois, parava bem quieto, olhar surrado e aflito a mão nervosa estendida fazendo gestos no ar. Rompia então em soluços e gritos desesperados: - "E o lenço dos colorados? E o lenço dos colorados? Eu quero um lenço pra mim, que é pra levá-lo ao pescoço quando chegar o meu fim!"
Mas ninguém ligava ao Chico nem seus pedidos ouvia. Assim, o pobre vivia cercado por todo mundo, mas dentro dele solito, pois que seu mundo era o sonho de ter um lenço encarnado que nem boca de sangria.
Uma feita... era domingo, havia grande carreira - gaúchos de toda parte e chinas do vizindário. E no meio dessa gente veio até um "mala-cabeza" - castelhano calavera fugido de comissário.
Parou na ponta da cancha meio solito o paisano, pois pra quem anda fugido até um olhar distraído parece perseguição. Estava pronto pra tudo - o pingo preso das rédeas e a faca junto da mão.
O pobre do Chico louco andava de ponta a ponta, pedindo a todos que via o sonho de seus desejos, que era um lenço colorado que nem boca de sangria.
O pobre do Chico pedia, mas ninguém sabia dar. Foi chegando para o lado donde estava o castelhano. Chegou, bateu-lhe nas costas e ao querer pedir o lenço, a faca do castelhano cortou-lhe a voz e a garganta e o Chico rolou no chão.
De costas, olhos vidrados e a mão direita crispada sobre o lenço imaginário que o louco tanto queria. Até parece mentira o que nos reserva a sorte:
- O Chico encontrando a morte teve o lenço que sonhou... O sangue quando jorrou do louco assim degolado, jorrando vermelho e morno, em seu pescoço o contorno riscou, de um lenço encarnado.