Tempo de Saudade
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Quem diria Que as meninas dos meus olhos Estão velhas, estão cansadas. Cansadas de ver o mundo. Que eu tanto queria ver.
Não faz mais que pouco tempo, Eu ainda era menino. Olhos puros, A alma branca, E uma sede de distância Que transbordava tranqüila, Se derramando salgada Nos olhos de minha infância.
A retina de meus olhos Se embaça, vendo a cidade. Nos olhos indiferentes De tanta gente que passa Sem mesmo saber que é gente.
Os olhos desses meninos, Que passam, de azul e branco, Expressam pressa, E se perdem No leito estreito e comprido Que o mundo lhes põe a frente.
Há homens jovens passando, Perdidos na multidão, Que pelas ruas se arrasta. Em cada olho um cifrão, Da vida tudo na pasta, E um vazio no coração.
O “boa noite” dos velhos, Há muito tempo perdeu-se Em loucas aceleradas, Que vão empurrando as pessoas, Nessas malditas calçadas Por onde andar nem se pode.
E as minhas velhas retinas Atrás de si, guardam verdes. De uma saudade tão grande, Que põe amargos na boca E até nem sei como cabe Por estas ruas tão cheias Desta cidade tão louca.
A minha frente A cidade. Antes de mim, A saudade. Saudade da voz macia Numa canção de ninar, Canções que as mães deste tempo Não tem tempo pra cantar.
Tinha príncipes e fadas, Tinha meninos e amantes, A estória que toda noite, Mamãe contava pra mim. Pena, não sei o fim, Eu sempre dormia antes.
E quando a noite adormecia Nos braços da alvorada, Eu levantava e corria, À procura de meu pai. Era dele que eu gostava, Depois que clareava o dia.
Era verde, azul e sol, A distância de onde vim. Mas a vida mudou tanto, Que a saudade fez castelo, Do meu rancho de capim. E, agora, Nem mesmo sei Se estou além das retinas, No seio desta cidade Ou se eu sou a saudade, Que trago dentro de mim.