Alma em Verso
Poesia

Rastros da Historia

Nenito Sarturi

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Abrindo o baú do tempo Repiso os rastros da História Nas plagas do M’Bororé. Não monto a cavalo: Pra sorver a essência De tantas legendas impõe-se ir a pé...

Assim vou seguindo Por sendas margeadas De paisagens verdes, Sangas encantadas... Cascatas brotadas De telas pintadas Por mãos de ancestrais. Várzeas e coxilhas, Trevos e flexilhas A sombra das matas que beiram juncais.

Ao largo cruzaram Em árduas campanhas Tantos imortais: Foram tempos duros Aqueles que homens E fortes mulheres viveram aqui. Foram almas rudes Aquelas que deram Contornos heróicos Ao chão que nasci.

Dos Sete Povos da Banda Oriental Do velho Uruguai Repicam os sinos, ecoam os hinos Que desde menino ouvi de meu pai.

São Nicolau Missioneiro Das Reduções o primeiro Que, na Pampa, floresceu; São Miguel Arcanjo forte Que até hoje mostra o Norte Pra um mundo que se perdeu; Ali em São Luiz Gonzaga Pode-se ver toda a saga De um povo que não se entrega! E, em São Francisco de Borja, Toda a têmpera que forja O gaúcho, que não verga.

Nas ruínas de São Lourenço Um Mártir abana o lenço Mas se recusa a partir. Quando um sonho vale a pena Não há grilhão nem cadena Que faça alguém desistir. De São João- o Batista Uma lição de conquista Cada dia se refaz... E Santo Ângelo Custódio Apaga o fogo do ódio Guardando a chama da paz. Então me perfilo Qual um combatente (Bravo voluntário) buscando nos livros a luz da verdade -Quase um relicário- Mas logo percebo Que os livros não trazem O anverso da História o lado perdedor...

Contudo, insistente, Olhando a minha gente Campeio a vertente de seu esplendor... E, enfim, sob a lona, Na beira da estrada: Ali, onde acampam A fome e a dor... Encontro uma luz: Um bugre cansado De brancas melenas Relata, a seu modo, A vida de um povo E a fibra da raça Que não se entregou Pele força da Cruz. Me fala de espadas, De lanças, tacapes e de catedrais; Dos homens de preto Que vieram de longe Plantando esperanças e sonhos de paz.

Me conta do gado E das plantações; Tropilhas selvagens Que livres pastavam No ermo dos campos. Me fala de rezas, de cantos, de encantos E das Reduções.

De torres erguidas, de lutas vencidas, De tardes compridas E tantos vertes.

Afirma que o rio De andar turbulento Trazia o sustento nos tempos de estio: Piavas, traíras, jundiás e patis; Pintados, dourados e alguns surubis.

E pinta cenários De tempos lendários Que ouviu muitas luas E luas atrás... Da voz de um Cacique Que fora bisneto de um grande pagé.

O índio acampado, de olhos parados, Prossegue trançando, à beira da estrada, Os cestos franzinos de vime e taquara -Balaios vendidos por parcos trocados.

As curvas do tempo Prosseguem lembrando Que temos memória, Embora “cristãos”... E, mesmo esquecendo Que temos raízes, Dobramos a língua aos nomes “pagãos”.

Tupã, Jaguané, Coatiara, Jacui; Porá, Caibaté, Coivara, Imembui; Tahã, Carapé, Jaguará, Ibicui; Cunha, Maquine, Caiçara, Jarí.

A história e seus rastros Confundem-se aos pastos Nas plagas longínquas do meu M’Bororé... Mas sigo terceando, Peleando e brandando Que “a terra te dono” Tal qual a Sepé!...