Alma em Verso
Poesia

Pajada Para a Língua Portuguesa

Vaine Darde

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Eu transito pelo verso Com metáforas de campo, Lampejos de pirilampos Nos vocábulos impressos. Pois toda vez que me expresso Com a prosa dos galpões Tenho o sotaque dos peões. Que, por mais que o tempo mude, - Apesar do timbre rude - Jamais renega Camões...

Meu verso tem a aspereza Das forjas de ferraria... A pena molda a poesia De vocação camponesa Mas a língua portuguesa É a chama que me inspira A seguir timbrando a lira Com acordes de guitarra, Borracho, que nem cigarra Que bebe sol e delira...

Eu me criei na fronteira Mas nem por isso declino Do meu idioma sulino Nem da Pátria Brasileira. Cantar à moda estrangeira É renegar todo o brilho Com o qual Camões, no exílio, Sofrendo ausências eternas, Chorou na língua materna E foi exemplo de filho...

Amo o timbre das auroras, Do vento nas casuarinas, Que a Terra Mãe nos ensina Nos sons que a gente decora... Que tem sílabas de esporas E cadência de legüero E que, apesar de campeiro, Não aliena o fonema Mas eterniza o poema Do cantador brasileiro.

Nosso idioma lusitano Que saiu de Portugal Na odisséia de Cabral Pelos confins do oceano, Chegou ao solo pampeano Pra dar nome às sesmarias Quando o Rio Grande nascia... E na mais bárbara etapa Eternizou-se no mapa Batizando a geografia.

Não contesto as influências Nem a mescla de culturas Pois a pampa é uma mistura De matizes e vivências, Porém me dói, na consciência, O que se faz e se fez Aos desprezar a altivez Desse idioma em que Caminha Registrou, em poucas linhas O Brasil em Português.

Por isto não abro mão De cantar as nossas plagas Com sons de esporas e adagas E cochichos de galpão Como se fosse guardião Ou mecenas do alfabeto Com que cantou Simões Neto As lendas do nosso povo, Sem modismos nem retovo Que causassem desafetos...

Por mais sonoro ou divino O idioma de Cervantes, Não me parece vibrante No mesmo tom cristalino Que timbra os versos do Hino De um Osório Duque Estrada, Um soneto, uma pajada Com a sublime beleza Da linguagem portuguesa Tantas vezes desprezada...

Não entendo esse elitismo De adotar língua estrangeira, É qual trocar de bandeira... Pois língua é também civismo, É sonoro patriotismo Que, pela vida, se agrava... Nos versos que a gente grava Sobre as folhas do caderno Querendo ficar eterno Com a pátria nas palavras.

Fonte: Jornal O Pioneiro de Caxias do Sul do dia 20 de dezembro de 2004.