Alma em Verso
Poesia

Relato da Nazarena - Matheus Costa

Matheus Costa

14º Bivaque da Poesia GáuchaPublicado em

Tenho a pressa pela sina E o respeito aquerenciado Com a gêmea do meu corpo Talareando no outro lado, Todos respeitam minha voz Bem mais o fio que carrego E beijo a prata da lua Quando em silêncio me entrego.

Cada dente pontiagudo Que carrego - ao meu jeito - É um desamor que trago Por não os deixar no peito, Nunca pude ser estrela Sobrou-me o tino de espora Por não saber de carinhos Minha alma em verso chora.

Se me arrastam, onde cruzo Deixo bem mais que um desenho O rastro que me conduz É a forja de onde venho, Fui a cura das saudades Quando apurei toda estrada... Fui a própria solidão Dormindo dependurada.

Sou razão de aprendizado Mesmo com pequenos dentes Na primeira vez atada No garrão de um descendente, Pra depois ser picardia E mesmo sendo chorona Jamais renego o costeio Contra quem esquece a doma.

Às vezes, injustiçada Na incerteza do clamor Abraço o treval cerrado E me enredo em uma flor, Que assim, sem saber como Dá adeus à vida serena E morre negando o beijo Dos dentes da nazarena.

Já fui relógio inocente À alguém perdido nas horas Que me escutando, sem ver Nem me lembrou por espora, Até apear num rancho Pra uma visita de amor E me deixar na ramada Com a poeira do corredor.

Dizem que levo por diante Copiado em minha figura O semblante das estrelas Nas suas formas mais puras, Mas meus dentes - tal espinhos Culpados pelas sangrias Nem se comparam ao corpo Tão belo das Três Marias.

Quis ser sinal de romances Mas o destino assim quis Que eu ensine pelo corte E aprenda com a cicatriz, Não pude ser flor do campo Tão pouco de algum jardim Restou-me os tentos de couro Que entoam juras à mim.

Por léguas, relato mágoas Canto sonhos, e somente Levo saudades comigo Pelas distâncias em frente... Carícias? Pouco conheço Mesmo tendo coração, Nestas horas, eu que sinto O corte da solidão.

Talvez por não ter nascido Feito estas moças que vejo Que com lábios colorados Entregam doce em seus beijos, Eu tenha o duro castigo De provar que já amei Mas não convencer jamais Por tantos que já cortei.

Nem canto a gêmea que trago Do lado inverso que venho Também espora, imagino Que tenha as mágoas que tenho... Mas eu lhe bem-digo em prece Se alguém possa me escutar, Pois foi somente com ela Que pude formar um par.

De noite poucos me escutam Canto minhas dores de dia E à quem tem campo na alma Sou bem mais que melodia, Os galos quebram meu sono Namoro os tentos atados... Tenho a pressa pela sina E o respeito aquerenciado.