O Tempo é Outro – Lisandro Amaral
14º Bivaque da Poesia GáuchaPublicado em
No branco pano do tempo pergunto ao frio do poema: que vim fazer nestes campos?
Se eu nem do campo não era... Só nasci na primavera e, aos passos dos domadores, deixei pra trás os doutores e outras consciências tapera...
Na bravura maneadora, no penacho das tesouras e couros largos de doma, fui percebendo o que soma na seleção da semente...
Fui recebendo o diploma do canto terra que soma no valor total da gente.
Senti o suor do inocente com cheiro de erva e chuva; com jeito de mel e uva... faces de barro de rancho.
Fumaça veeeem...e se vai...
Que vim fazer pra estes lados? Sentir o chão colorado pele do rio Uruguai... (Enxuga o pranto Senhor... vós que ensinastes plantar E o rio do peixe dourado anda com fúria de mar.)
Ouço mágoas de posteiro em cada fio de potreiro que morre em gotas de nós Ouço o cântico das águas chorando penas e mágoas da solidão de uma voz
Não mais o campo lavrado, agora, tudo mudado na profecia Maicá.
Silêncio é berro de gado, silêncio é guincho de potro silêncio é canto de galo! Não... não há mais riso de gente Sei do passado, perdido o presente.
Beira de povo: o tempo é outro!
Sabico era das tropas quando chegaram zunindo roncos de força de arado.
Motosserra e não machado cavaqueando a coronilha e outros matos abrindo trilha onde eu nunca vi pecado.
Cinco potros bem costeados. Sabiá em volta dos gados e o touro que da pra um laço. Nem sabia sua inocência que era um fiapo de querência morrendo ao tempo do aço.
Sabico risada Forte, não precisava de norte pois tinha o sul do cruzeiro e de São Luiz ao Puitã tinha um vôo de tajã e as voltas de um misisioneiro.
Sabico um gole te canha como hóstia em bom Domingo Sabico um asco de gringo na escaramuça em lua cheia e um olhar que corcoveia por ir perdendo a inocência quando perdendo querência alma branca fica feia.
Maragato!
Maragato de alma pura, tinha mulas pra lonjura e os lábios roxos da írma Seis léguas de sesmaria num potreiro de magia que cercou à beira estrada como disse o Mano Lima - bom troveiro e domador -
“Foi ele meu professor o Maragato Antenor de adiante da Encruzilhada” Um guardião do bom dialeto bigodão analfabeto - centenária educação - Sabia o valor da gente, sentiu medo da semente que plantava a evolução.
Maragato! A própria firma... Na doçura que se firma, buscava o batom da írma Pra beijar no chimarrão.
O que eu vim fazer aqui!!!? Qual o vento que me traz? Aniquilam-se as estâncias deixam tristes as distâncias
Não se sabe o que se faz Evolução anda pra frente???
Produzir mata essa gente que não sabe o que hoje jaz.
A peonada em bandalheira Já não fecha mais porteira Alambrado? Não se faz... Mataram o posto nobre Bom salário? Morre o pobre
Na extinção do Capataz.
(Enxuga o pranto Senhor... vós que ensinastes plantar E o rio do peixe dourado anda com fúria de mar.)
Que vim fazer pra estes lados? Sentir o chão colorado pele do rio Uruguai...
(Voltei ao rancho da querência onde nasci Vim ao tranquito assoviando uma vaneira Não vi ramada, não vi rancho nem mangueira Pensei comigo - com certeza - me perdi)