ROMANCE DO TRANÇADOR: Mário Amaral
19º Bivaque da Poesia GaúchaPublicado em
Com os dedos firmes no cabo da faca Pra tecer as cordas no ritual campeiro O punho certeiro vai lonqueando tentos Em dias de chuva ao calor do braseiro
Ritual e romance num gesto de pampa Entrevero de guampas que o campo iguala Bocais e trançados nos galpões terrunhos Ofício e legenda que o tempo assinala
Trancei laço, relho, cabresto, buçal, Bainha, mango, fiel, barrigueira, barbicacho... Preparei arreios tauras com couro de boi brasino, Pra proteger o carnal com o pêlo virado pra baixo.
Cuidei de tapichi e laço ramalhado Pra retovar usei mordaça, cravador e bom tino Só esqueci lá na chuva amanhecido O couro cru pra o apero do destino
O tempo foi de soslaio deixando a marca da espora Guasqueando a vida apresilhada na ilusão Quem tenteou a vida solito hoje se vê enredado Em quatro tentos torcidos das cordas do coração
Além do couro trancei o rumo dos ventos Tento por tento com o aroma da courama Mas esta sina foi além de um doze braças Desenrodilhou-se e pela pampa se derrama
Não tive tempo de courear o boi saudade Que por malino só atende a relho e a grito Só tive tempo de courear o boi esperança Que deixo de herança para as mãos do piazito
A lida bruta temperada na fumaça Que a cisma perpassa com tentos em sinfonia Como eu quisera com os cabelos da morena Fazer mil tranças de amor e de poesia
Nas horas ermas em que a saudade vem de jeito Adentra ao peito tal ponilha e faz estrago Tomo um mate pra espantar a solidão E braceio um couro bom pra tentear a tranco largo
A mim que trancei cordas bagualas vida afora Garreando as horas com a força de um sovéu Restou somente o próprio couro garroteado E a alma desquinada pra trançar tentos no céu