STRADIVARIUS - Bianca Bergmam
19º Bivaque da Poesia GaúchaPublicado em
Eu não sou velho! Bravejei aos berros, enquanto o corpo me gritava: - “”É”!
A longa estrada a me pesar os ossos. As carnes moles a doer por nada. Os olhos turvos e tão embaçados, Olhando ao longe e nem chegando perto. A voz cansada até para gritar.
Então parei para pensar no assunto... Onde eu estava que não percebi O dia a dia a me roubar o viço? Onde eu parei, que não deixei o ofício, Enquanto os outros foram descansar?
E assim me vi desesperado e pobre, Feito a moeda que não vale nada E que por outra já será trocada, Sem poder ter o que já lhe coubera.
E assim me vi, com o peito qual tapera, Que ainda resiste neste ir e vir, Sabendo triste, logo um vento chega E inevitável lhe será cair!
Olhei na volta, rebusquei amigos... Achei uns poucos, outros tantos foram. Foram embora, pra virar lembranças E umas histórias pra contar aos netos.
Mas sim. Eles viraram lembranças! E sim... Eles deixaram histórias! Nesse momento, me entendi um velho. Velho demais pra questionar o tempo, Pois a velhice que ele impõe aos corpos, Minha alma nega a aceitar, por dentro.
Mas não! Eu não sou velho! Balbuciei aos prantos E as minhas lágrimas me entenderam.
Porque elas sabem que esse meu novelo Não tem vontade de se embaraçar.
O fio da vida está esticado, Mas eu o vejo feito a corda tensa, Que sublinhada pelo arco certo, Extrai as notas de um Stradivarius.
A velhice... Ah... A velhice, Bela senhora, tem os seus encantos. Tem a experiência do contar dos anos... Tem a beleza do saber pra mais...
E a tapera? A tapera agora no meu peito canta! Se é inevitável o chegar do vento, Que ele a encontre firme e sem lamentos, Olhando o tempo e abraçando a sorte, Porque quem olha sem pesar pra morte, Sabe que a vida lhe valeu a pena.
Encaro o alto da escadinha infame... Olho as sacolas e me encorajo. Cada degrau é um desafio, mas ajo. Não me conformo, eu consigo! Eu venço! Até que o ar me falta em um momento, Paro de soco e quase me esborracho. Faltam mais três e lá me vou de novo! Subo os degraus e o desafio é pago.
E lá do alto, ao olhar pra baixo, Com as sacolas e com as mãos tremidas, Numa cadeira, eu repenso a vida, Com um pensamento a me tomar de assalto.
É... Eu sou um velho!
Eu sou um velho! Repeti sorrindo E até a vida, me sorriu de volta!
Porém um velho cheio de desejos. De tempo e vida, sou quase um guri. E quando o tempo me encara eu digo: -Um velho sim, mas não envelheci!