Alma em Verso
Poesia

Solo Y Libre

Mano Terra

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Solo y libre; campo aberto; uma amplidão sem limite; nada devo, ando quite; nunca estou longe, nem perto; não tenho endereço certo, a Pampa é minha morada; nunca trilho a mesma estrada e miro até onde a vista alcança; ando só por segurança e sempre garanto a parada!

Nasci da barriga 'bugra' de semente afro-ibérica. Sou um pouco Europa e América, bastardo da raça rubra e renegado da turba dentre os próprios da mi'a raça. Não é diferente a desgraça quando o branco discrimina. Sou mestiço filho de "china" com o desprezo por mordaça.

Me voy na planície infinita a procura, quiçá, de mim mesmo. Se pensam que ando a esmo resignado em desdita, respondo no tom de quem grita: sou gaudério changador na Pampa sem dono e senhor. Faço parte da memória daquele que fez a história do gaúcho precursor.

Não tenho o luxo da corte e nem mesmo o calor do fogão. Sou meio bicho, meio não e nunca confio na sorte. Caminho entre a vida e a morte, em tudo aprendendo de tudo. Falo pouco e não sou mudo, ouço mais porque é prudente; entendo a língua da gente escutando os bichos miúdos.

Fazendo aquilo que faço, soy libre y dono de mim. Ninguém me apresilha ao clarim e nem me manda ao sofrenaço. Tenho por diante o espaço da Pampa e do gado orellano. Nunca sei dia, mês, ano... Pra mim todo dia é domingo e todo o invasor é um gringo, seja luso ou castelhano.

Solo, libre y suelto de pata, me voy e às vezes me paro. Uma tropa pressinto no faro! E quando preciso de plata coureio de pronto a la farta e levo a vida que quero. Sou sócio do quero-quero e primo-irmão da coruja. Tenho o mundo por lambuja e da riqueza conto os zeros.

Sou o ancestral do gaudério e do guasca, o tio-avô. Por supuesto, o 'tataravô' dos gaúchos do hemisfério e semente de um novo império de raças, idéias, culturas de uma das cepas mais duras que o mundo irá conhecer. Se tu 'sabe' o que eu quero dizer, beba comigo um 'gol' de pura!

Engula com gosto esta pinga, erguendo os olhos pro céu. De pronto, tire o chapéu e, ao canto da jacutinga - e do tajã - desde a restinga, saudemos os taitas da raça. Num brinde ao sabor da cachaça e, na versão campeira da farra, passe a mão nesta guitarra e cante uma milonga machaza!

Neste cantar galponeiro que nasceu ao descampado, ouvindo um eco tisnado pelo vento vanguardeiro, o gaúcho se planta inteiro na história deste planeta. E manda quebrar a proveta quando o assunto é cultura. Seu xucro desenho e moldura não carecem de muleta.

A sua história verdadeira, bem como ele soube ser, jamais poderá pertencer a um só lado da fronteira. Hoje, com tanta porteira e a ânsia de propriedade, nos obriga a realidade voltar a um tema surrado: o gaúcho aqui retratado tem distinta identidade.

Mistura de ibérico e índio com cruza de negro africano, ele nasceu campechano e foi, pela lei, reprimido. Para não ser submetido como soldado ou peão, esse gaudério varão 'se mandou-se' campo a fora. E assim foi repontar a aurora de nossa cultura em ação.

Era o dono da pradera metido no lombo do pingo. Entendia ser um gringo aquele que viesse de a fuera. Não pode ser só brasileira, tão pouco só castelhana a identidade mundana desse taita cultural. Então, por questões de moral, a verdade se faz soberana.

Cidadão do Novo Mundo e o primeiro emancipado. Brigou para ser respeitado no seu pedaço de mundo. Primeiro ser oriundo da cruza de raças várias, cidadania primária do homem conessulista. E maior expressão nativista da América Legendária.

Frente aos quadros de Berega e dos escritos de Hernández, vejo o quanto é muito grande dizer: 'eu sou gaúcho e me chega!' Sei que quem é não renega e jamais cantará outro verso. Que fique, afinal, expresso sobre esse taita pampeano: enquanto existir minuano, haverá gauchos no Universo!