Todos os Ventos
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O coração que nos leva pulsa forte E mostra em seu sangue porque veio... Porque se inscreveu nestes silêncios Que marcam suas pegadas pela areia.
O coração que nos leva tem recados De um tempo que não quis ficar pra trás E trouxe pra este tempo seus guardados, Bebendo dos seus próprios mananciais.
Não é de sonhos miúdos Que um povo molda sua argila E redesenha seus mapas... Não é com brisas esparsas Que a vida mostra sua cara E impõe sua condição. São sonhos que surgem plenos Com sentimentos extremos, Com toda a fibra da alma; Mostrando que pela história Só se conquista a vitória Com as armas do coração.
Nós somos todos os ventos Que cumprem velho ritual Num berço de gauchismo Plantado no litoral.
Já faz um século e meio Que nós te vimos nascer... Tenteando os primeiros passos De uma história a florescer. Te vimos ganhar o mundo Campeando luz e esperança Porque, Conceição do Arroio, Apesar de tantos sonhos Ainda eras criança.
Os memoriais que guardamos Em nossos itinerários Fazem parte do inventário Que pelo tempo somamos; Te vimos, ano após ano, Te vimos, dia após dia, Escrever rumo e magia Nesta terra em que ventamos.
Há cento e cinqüenta anos Nós vimos a Freguesia Se apartar de Santo Antônio, . Ganhar o nome de vila.
O pássaro ganhou plumas As plumas viraram asas... E o tempo, que é ferro em brasa, E não dá vau nem perdão, Por certo abriu seus caminhos E acolheu com carinho Os teus vôos, Conceição!
Os anos foram passando E tu seguiste de pé... Somando Torres, Palmares, Logo depois Maquiné.
Mudaram distritos, comarcas Mudaram as ordens, as leis... Provaste sangue e mortalhas Na guerra de vinte e três. Mas nada mudou teus sonhos Que pealo nenhum desfez.
Nós lembramos, Conceição, Quando deste o coração Em verdadeiro ofertório! E com as bênçãos de Deus, Em honra de um filho teu Te batizaram Osório!
Osório! Disse o mundo aos quatro cantos, Tão forte que sua voz ainda ecoa Nas águas inquietas do oceano, No espelho cristalino das lagoas.
Vão cento e cinqüenta anos E nós seguimos passando... Bailando com os cata-ventos, Girando, sempre girando.
E continuamos ventando Pelo correr dos teus dias... Osório de tantos sonhos, Palco de canto e poesia. Do verde manto dos morros Tantas asas coloridas, Contraponteando teus vôos Pelas lonjuras da vida!
Hoje os novos cata-ventos Não são somente um girar... São a face do futuro Se desenhando no ar. E quando neles chegamos Com nosso beijo fecundo, Geramos fontes e auroras Pra os desafios do mundo.
Nós somos todos os ventos Que cumprem velho ritual Num berço de gauchismo Plantado no litoral.
És Conceição, és Osório, Buscando sempre crescer; Sabendo pra onde ir Porque sabe de onde veio; Agora somos platéia Pra o sopro dos teus rodeios...
Já faz um século e meio Que nós te vimos nascer!