Alma em Verso
Poesia

Últimos Carreteiros

Carlos Omar Villela Gomes

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Não sou as rugas e os cortes Que a vida marca em meu couro... Sou bem mais que algum lamento À beira deste fogão. Meu olhar revoa ao longe, Muito além dessa fumaça... Além da nuvem que passa No ventre da imensidão.

Meus anseios vêm de longe, De muito além desta era... São juntas de bois brasinos Cruzando tempos e estradas. Os sonhos são santa-fé Quinchando carretas velhas, Que povoam meus silêncios E o fundo dessas volteadas.

São tantos eixos rangendo, São tantas rodas girando... E a sina de carreteiro Vai repetindo: -Até quando? São tantos, tantos caminhos, Plenos de pó e atoleiros E um manto de soledades Mais largo que o pampa inteiro.

O pampa é um céu pra quem sonha Nas asas de uma carreta...

Miro na volta de manso... Outras almas também sonham O mesmo sonho que eu; Esteios de um tempo velho Em cada olhar resistente, Pechando a vida de frente Sem qualquer sombra de adeus.

O fogo busca os silêncios mais fundos Que nossas almas remoem inquietas... E faz dos olhos porteiras abertas Pra os nossos sonhos ganharem o mundo.

E cada rosto se faz um espelho Onde as lembranças, a pouco caladas, Trazem um tempo repleto de estradas E uma carreta de luz por sinuelo.

O fogo faz que devora Mas na verdade acarinha... Há um ranger que vem de longe Alimentando o rodar Do eterno ciclo da vida.

Quem sabe o mundo girando Seja apenas uma roda Da carreta mais bonita Que Deus Pai idealizou.

A vida passa e repassa, O mundo segue girando, A inquietude picaneando E a sina de carreteiro Ainda repete:- Até quando?

Até quando Deus quiser E Deus sempre há de querer... Não me falem de passado Quando eu falo do presente... Do meu sangue, da minha gente, Da minha noção de alma.

Sou filho de carreteiro, Meus companheiros também... E não me venham, doutores, Com patacas e motores Que de estradas e de amores Nós sabemos muito bem.

Talvez não sejamos fortes Ou verdadeiros heróis... Mas o que somos e amamos Nem mesmo o tempo destrói.

O mundo corre, se apressa... Nós seguimos devagar; E assim enxergamos coisas Que muitos, sempre correndo, Não tem tempo de cuidar. Como a vida é mais bonita Pra quem sabe perceber A beleza que há na vida!

Os resmungos da carreta Talvez sejam meus também... Eles nos contam segredos A cada nova jornada. Pra que pressa? Temos tempo... Todo o tempo da existência... Os bois seguem no compasso Que marca o meu coração.

Meu pensamento se eleva... Procura os olhos de Deus, Vertendo luz entre as trevas; Toda essa luz que conserva Tão viva a nossa missão...

Minha carreta é meu templo E a estrada, minha oração