Um Ato de Amor ao Cavalo
Publicado em
Parceiro, me ceva um mate Que há uma secura tão grande Queimando dentro do peito, Como uma brasa de cerno Que se esqueceu de apagar; Bota um jujo na cambona Pra acalmar esta ansiedade, Hoje só tenho vontade De tomar mate e prosear Perdoa se te importuno Perdoa se te atrapalho Se te imploro que me escutes Se venho chorar as mágoas Se preciso um ombro amigo; Entendas bem meu parceiro, Meu mundo trocou de pontas E neste acerto de contas Só posso contar contigo A vida às vezes se queda Num tropeço de má sorte Alheio à nossa vontade Apenas por ironia De um capricho do destino; Roda o mundo à nossa volta, Nos falta o chão sob os pés E quem conhece o revés Muitas vezes perde o tino Pois te conto, meu parceiro, Dei muito tirão em potros, Amanunciei aporreados, Domei tropilhas velhacas E nunca perdi bolada; Arrucinei bagualada E pialei só por fula Mas hoje um "coice de mula" Pôs fim na minha empreitada Tô chegando basteriado, Há dias nos corredores Não encontrei uma changa, Só tem porteiras fechadas Nas entradas das estâncias; Voltei das bandas do povo Por não encontrar espaço, Só tenho a força do braço E a vida nestas distâncias Sonhei como sonham tantos Cruzei noites, madrugadas, Mateando ao redor do fogo Na ilusão de que algum dia Alguém daria valor: E, quem sabe, até tivesse Um rancho, um catre, um piazito, De campo, só um pedacito, Pras lides de domador Mas a triste realidade Chegou da forma mais dura: O campo mermou pra muitos, E num injusto rescaldo Sobrou campeiro e cavalos; Ambos outrora importantes Restaram sacrificados Porque nas leis dos letrados São eles que dão pealos Mataram nossa cultura Nossa história e tradição Com pretextos de teorias Tiradas só pelos livros Pra serem leis restritivas Por quem nunca foi do campo, Criados em palacetes Não entendem de ginetes E nem de vidas nativas Hoje tudo é proibido No jeito de olhar daqueles Formados dentro de salas De faculdades urbanas; Sem visão e sem vivência, Chegam montados em normas De uma elite mercenária Tornando a vida precária Para os filhos da querência Vão definhar as manadas Pois não resta utilidade Pra cavalhada crioula Que em longos quinhentos anos Se formou na pradaria; Dom Emílio Solanet O que restou dos seus sonhos Se os olhos desses bisonhos Não enxergam serventia Símbolo de amor e civísmo, Orgulho do meu Rio Grande, Da pampa continentina, Chile, Uruguai, Argentina, Raça Sul Americana; Por que o poder desses loucos Tem mais força do que a história Mais valor do que a memória Pra essa classe tão insana Gaúcho não se acovarda Pega em armas se é preciso, Mas hoje nós não honramos O amor e a lealdade Ao nosso pingo e amigo; Por isso vim meu parceiro Pra tomar o último mate, Depois me vou pro combate E espero contar contigo Vou lutar pelos cavalos, Vou lutar pelos campeiros, Por ginetes, laçadores, Posteiros e domadores Pela honra da querência; Vou formar a reculuta Com a força de um regimento, Que se dane o parlamento Pois já perdeu a decência Abaixo as leis e discursos Dos pseudos moralistas, Que se penduram em falácias E se arvoram defensores, Só pra tirarem proveitos; Nada conhecem da vida E querem ditar critérios, Não têm propósitos sérios Nem clareza de conceitos Quem quiser alistamento Pode entrar para a coluna, Porque o sangue do gaúcho Jamais se achica ou recua; Mesmo lanhado e em trapos Temos em nossas artérias A nobreza dos charruas, O rigor das cordas cruas E a bravura dos farrapos A ti, meu pingo amigaço Meu último juramento: Vamos pelear ombro a ombro Até a última gota, Numa gana farroupilha; E se tombarmos na luta Há de ficar por legado Um centauro ali tombado Na moldura da coxilha. Mas se formos vencedores Quero expulsar da tribuna Esta cambada reiúna Que ganha salários gordos Pra tripudiar nosso povo; Aquilo que destruiram Tornando a todos vassalos, No lombo de bons cavalos Faremos tudo de novo!