Alma em Verso
Poesia

Um Violão Abandonado – Carlos Omar Villela Gomes

Carlos Omar Villela Gomes

14º Bivaque da Poesia GáuchaPublicado em

A noite beijou meu rosto com ar de mãe carinhosa, Desenredou sua prosa entre sussurros perdidos; Despetalou os sentidos em cada face sombria E deu risada do dia, que há muito tinha partido.

A timidez de uma estrela se desenhou logo adiante, Mas seu sorriso distante, mesmo silente, chamou; Logo a lua se mostrou, jorrando sua claridade E a noite, bela e covarde, aos poucos me atropelou.

O que amola na penumbra não é o vento rezingando, Nem o silêncio cortando as horas de solidão; O que parte o coração é ver as notas caladas E a cantiga abandonada da silhueta de um violão.

Um violão abandonado, jogado à beira do mato, O mais tristonho dos fatos sangrando na noite fria; O parceiro das poesias deitado nas folhas mortas, Fechando suas comportas de sonhos e melodias.

Os lanhos lembram feridas dalgum guerreiro tombado, Um sorriso desbotado na hora da despedida; As chegadas e partidas resumidas no abandono De um violãozinho sem dono, lembrando um corpo sem vida.

As cordas se “remalharam”, se foram no fio do tempo, Seis horizontes, seis tentos, que davam luz a esse pinho; Ou talvez um passarinho levou seus restos no bico, Rumo ao destino mais rico de ser sustento pra um ninho.

Quantas mágoas debruçadas na alma do guitarreiro, Todo o sal do desespero correndo dos olhos baços; O tempo riscando os traços hesitantes da incerteza E aquilo que era beleza virou o pó dos seus passos.

Quem sabe do guitarreiro, da sua doçura ou veneno? Quem sabe dos seus extremos, da solidão que devora? Quem sabe uma flor de outrora o retalhou com suas garras, E ao se livrar da guitarra jogou a sua alma fora.

Já sem alma, foi adiante procurando o fim do mundo, Onde árido e fecundo se misturam no retrato; , Mas o direito e o fato já sabem, não há saída, Pois ele deixou sua vida jogada à beira do mato!

Ou será que de alegria, de pura felicidade, Um gaúcho de verdade, pacholento e fanfarrão; Encheu o seu borrachão e o peito de canha pura, E no final da aventura extraviou esse violão?

Somente o seu bojo sabe, somente o braço sustenta, Se calmaria ou tormenta regeram o seu destino; Se um sentimento ferino, por maula, lhe jogou fora, Ou se algum taura pachola se atrapalhou, por teatino.

Num violão moram fantasmas, gemidos e rebeldias, Rugidos e ventanias, arpejos de temporal; O mais terrunho ritual, também os sons mais sagrados... Um violão bem empunhado é mais que uma catedral.

Os sentidos, os olhares, os desejos e ternuras, Os segredos e as doçuras da alma no tocador; O cheiro de cada flor, cada paixão feiticeira, E um sonho pra vida inteira, que os poetas chamam de amor. Um dia a madeira some, as cravelhas se dissolvem, E o tempo aos poucos remove o seu corpo de violão; Normal decomposição dessa orgânica existência, Mas nada destrói a essência de quando se fez canção.

Pois as notas dançarinas valseiam livres na volta, Formando a mais linda escolta que alguém já ousou formar; Sou eu, a paz do lugar e a noite, chorando ao lado De um violão abandonado, deitado aos pés do luar.

Crédito da fonte: Autor: Carlos Ornar Villela Gomes