Alma em Verso
Poesia

Velha Terra

Ana Lívia Krewer Mielke

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Mil setecentos e setenta e sete, Uma casa pequena em um território sem fronteiras, Lisonjeiras manhãs e noites, guiadas pelos astros, Não só o sol e a lua, mas o vento deixava rastros… Matreiras feito éguas, eram as mulheres desse passado, E os homens, duros na queda, só pensavam em legado, Por isso na moradia, embora passassem tantos, Mandavam pra outros cantos os pretendentes da menina.

O pai vivia de trabalho, era o senhor do campo, Os guris eram companheiros na lida dura e necessária, As mulheres auxiliavam em sua cega devoção. Até que surge alguém, um nativo de bom coração, Que tocava flauta ao senhor, domava seus cavalos, E jamais prestava queixas por na mão carregar calos. No peito de Ana, Pedro encontrou a paz desejada, Mas engravidou sua amada e tudo veio por terra.

Na noite que os demais souberam o vento vinha gritante, Eram prenúncios de maldição… era o clamor da morte, Que deixou a própria sorte, a jovem e seu bebê, Pois pelas mãos dos cunhados, o pai não o viu nascer. Ah, Ana se fez forte, foi sofrida sua caminhada, Mas nos entremeios da vida, encontrou nova morada E só se deu por saudade, só foi ventar com o amor, Depois de ensinar cada valor para o filho e para a neta…

E se, em outros dias, o zunir do vento batia janelas, Então filho e neta lembravam e recitavam, devotos, O antigo ditado “noite de vento, noite dos mortos”... Ah… Cheios de saudades, como ela, tentaram viver. E Bibiana encontrou o amor num tal Capitão Rodrigo, Um sujeito medonho, que carregava consigo O peso do velho dever, de quem nasceu na pátria, Um dia pela pátria também morrer.

Mas deixou Bolívar Terra Cambará, o primeiro com nosso nome, Meu pai, dono do sobrado com minha mãe adoecida, Também se foi a próxima vida sem o filho conhecer, Sou o primeiro dos nossos, que viu algum filho nascer, Por isso que mesmo indevida, a guerra que nos abate

Sei que saio com vida ao findar desse combate Pois luto por mais que honra, por além da liberdade, Luto pela mocidade, que o Patrão me confiou.

Meus guris, vocês são o futuro da história dos Cambará, E eu sei que levam consigo, a força de grandes guerreiros, Mas lembrem que vem primeiro, o Terra em vosso nome E não se esqueçam do ditado, pois ele logo se some, Se estiver tempo feio, mal nenhum irá fazer Mas se começar ventar, então alguém vai morrer Falem com Bibiana, antes que ela transcenda, Sua avó é uma grande lenda, como a avó antes dela.

E me escutem com carinho, Quando vos digo que se encontrarem uma Ana ou Bibiana, Não fiquem à paisana e as façam mães de seus “gurizes”, Pois serão elas a base para a família ter fortes raízes. E se, por alguma pestana, não surgir tal prenda, Não sejam covardes, tenham a força de quem vai pra guerra, E carreguem vocês mesmos a coragem do passado Esse grande legado, construído por cada velha Terra.

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