Passagem
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E se diziam gaúchos Os que chegavam a cavalo. Tinham lampejos de lua Por entre as melenas longas E uns acordes de milongas, Como fundo musical Das prosas de muitas rondas.
As alpargatas barbudas. Botas de pé por trocar, Pilchas simples, dos campeiros, Cherengas de palmo e meio, E alguns usavam guaiacas Escassas eram as patacas, O municio e os avios.
Puxando a trova a martelo, Gaitaços nas noites claras. Bordoneios de guitarras No ritual dos pajadores. Cantilenas chimarronas E uns resmungos de cordeonas Amadrinhando os cantores.
Falavam, em revoluções Idéias de independências Sotaques de mil querências. No calor das discussões. E entre causos de guerra, Carreiradas campo afora Discutiam fios de adaga E o tamanho das esporas.
Cheiravam a suor de cavalo, Fumo e charque de capincho. Na madrugada, relinchos Entre o murmúrio do vento. A quincha do firmamento No relento das pousadas.
Sonhos, nem sei se tinham. De certo alguns desejos. Porque esses índios andejos Não se iludem assim no más. As tantas necessidades Passadas nos corredores Deixaram esses campeadores Velhacos e redomões Ressabiados dos tirões Dos manotaços da vida.
Fio de bigode pra eles Muito mais que documento. Pra garantir o sustento, Empreitadas, negociatas. Vivendo "a laço e espora" Na eterna sina caipora De repisar os caminhos.
Heranças da raça crioula: A estampa, a lida e a vivência Bandeira, a sobrevivência,
Na teimosia dos rudes De nunca trocar de ofício E nem trair seus ideais, Por mais que essa terra mude.
Encilhando ao seu feitio Alçam a perna montando. Monarcas escaramuçando Pra partir sem dar adeus. Os rumos, esses são seus. A liberdade, um regalo. Talvez o maior dos luxos. E se diziam gaúchos Os que partiam a cavalo.