Alma em Verso
Poesia

Colcha de retalhos

Antônio Augusto Ferreira

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No verão, céu estrelado, deito embaixo da carreta, a saudade não se ajeita, vem deitar no meu costado. Mania desta guitarra cantar tropas, rondas, potros, um verso puxando os outros até que o sono me agarra. Tive de vender inteira a tropilha dos gateados, não deve ser da poeira que os meus olhos vêm molhados. Saudade da sesta boa no galpão onde eu encilho, meu pingo quebrando o milho pelas tardes de garoa. Cavalo que corcoveia conheço ao meter-lhe o freio. Não tiro pro meu arreio se for mesquinho da orelha. Dom Avelar garganteia que a cavalhada é um assombro, tirante os que corcoveiam são todos mansos de lombo. Logo depois do churrasco não me agrada ginetear, co'o balanço do corcovo me dá ganas de sestear. Amunto bem e me agarro, e o potro, de plano feito, corcoveia deste jeito, nem me deixa armá o cigarro. Moço, metido a campeiro, arreio, pilcha bonita... Mando buscar um oveiro de "esprementar" a visita. Cavalo não nega conta, não fala da vida alheia, me carrega e não faz conta e apanha, se corcoveia. Quanto mais busco a amizade mais acho rasto de sorro. Meu cavalo, meu cachorro, dois amigos de verdade. Não confio nem um pouco em louco bancando o certo, muito menos em esperto querendo passar por louco. Abaixo vai meu cavalo, acima vai meu chapéu. Mais alto, só passarinho quando navega no céu. Quem souber coplas, que cante, alma livre, rédea frouxa, vamos tecendo esta colcha com retalhos do Rio Grande.