A Visita
Uma visita silenciosa Adentrou o meu jazigo; Com olhos de quem quer prosa Deparou-se, então, comigo.
---Diga lá, quem és, vivente?! A pergunta lhe foi feita. ----Sou quem, quase sempre, É recebida com desfeita.
---Por que chegas nesta hora, No rasgão de um segundo? ---Se, é justamente agora Que achei meu próprio mundo?!
Dois olhos de puro fel, Poucos amigos, por certo... Não deu nome, só um papel, Um embrulho já aberto!
Ao olhar, estarrecido, Tocou sinistra, meu ombro. ---Já há muito tens vivido, Não me olhes com assombro.
Largou o papel sobre a mesa E disse: ---Meu bom homem, Olhe cá pra ter certeza Se este é seu sobrenome.
Assenti num movimento Sem nem mesmo ter reflexo. Que adianta sofrimentos, Quando tudo perde o nexo?
Nem tempo pra despedida? Pra um bilhete, sequer? Pra deixar, nesta partida, Um testamento qualquer?
---És filho do nada, olhe, Não amas, não tens casório. Nem ao menos tem a prole Pra chorar em teu velório
---Sem amigos, sem irmãos, Não tens nem adversário... Assopraste a solidão, Em todos aniversários!
---E quantas ceias, criança, Comeste em lágrima e dor?! ---Queres deixar uma herança Pra quem mesmo, senhor?
Ao fazer assim as contas Da vida que não vivi. Troquei o rumo de pontas, E nessa hora, me rendi!
Na velhice que me aplaca, Desvendei-me então com calma! Amolou sua velha faca Pra cortar a minha alma!
Foi o golpeio inesperado Que a visitante me deu. E me engoliu, despreparado, Cobrindo-me com seu breu!
Não anunciou chegada, Não ficou para um café... Bem assim que foi roubada... A minha aura, ainda de pé.
Foi, então, em fio de corte, Que, num átimo, um gume, Pela lâmina da morte, Veio roubar o meu lume!
A mão trêmula, num vulto, Se apegou no peito farto... Sem grito, sem insulto, Fulminou-me um infarto.
Um estalo agora abala O piso tosco e encerado... Atravessa toda a sala, Pra cumprir seu mandado!
Carregou-me em seu colo Pra consumar o transporte... Um corvo a comer meus olhos, Nestes delírios de morte.
Por não passar de alma morta, Desencantada lucidez. Digo-lhes: quem bate a porta?! Pode ser a sua vez!