Conserto
e Dhouglas Umabel (violino)
Paredes entortam quadros, janelas trincam vidraças... Assoalhos gemem passos por entre as tábuas lavradas... Telhados se fazem cúmplices das disfarçadas goteiras que penetram sorrateiras manchando a pele da casa, pra depois abrir suas asas numa obra retratada...
Dobradiças choramingam enquanto a dor da ferrugem, consome à mudas dentadas os sorrisos das calçadas que adentravam pela porta, e vinham brindar cos ventos as infâncias de outros tempos nessas lembranças remotas...
São as feridas da casa, que, carcomidas por traças, suplicam por um conserto... São as renúncias de um dono que, sofrendo o abandono, abandonou o seu leito...
O sol desbota as cortinas que, desmaiadas, sem cor, são o véu pra noiva lua que entra por tantas frestas iluminando o altar... É a única energia que clareia a noite escura abençoando a loucura de, um dia, o sol encontrar...
Cadeira embalando só, o sono de um acento que rasgou-se em pesadelos... Tapete que não esconde as poeiras dos segredos, e revela o duro piso nessas bocas florescidas mostrando seus falsos risos...
Cabeceira de uma cama em sobressalto acordada... Relógio inerte, sem vida, enforcado em suas cordas que amanheceram silentes caídas em desatino na força dos próprios dentes...
Prato e copo sobre à mesa alimento pra esperança de um dia recomeçar... Garfo e faca sobrepostos... Vestígios de uma vontade que a fuga, tola e covarde não trouxe para o jantar...
Ao longe um sino tocando... Anunciando o domingo, louvado dia sagrado... Santinha no oratório sem vela no castiçal... O vaso trincou de frio, e a flor, de sede, morreu... A imagem teme o espelho que não reflete por medo, e se fazendo em pedaços só mostra a face do mal...
Aranhas tecem lençóis que se estendem pela casa... Gemem torneiras tristes em cada lágrima que cai, escorrendo pela pia que zomba da judiaria de quem mergulha no escuro sem saber pra onde vai...
Armários sem fantasias... Gavetas sem intenções... Roupas sujas sem o tanque que partiu-se pelo meio desfazendo-se de anseios de estar além de um quintal... O sabão não faz mais bolhas... Prendedores se desprendem... E o sol, seca a brancura ausente pendurada no varal...
Gorjeios de um pousar livre, prenderam-se no retrato que a parede entortou... Do teto, descem as asas desenhadas em silêncio pelos prantos das goteiras... Ali no meio da sala valseia meio sem jeito, um rabisco amarelado de um poema inacabado intitulado “CONSERTO”...