Na Pausa da Inspiração
Existem certos momentos Em que a inspiração adormece E o poeta parece Viver um estranho torpor... Não brotam poemas de amor Nem milongas enluaradas, O caderno é campos de geadas Branqueando nas folhas nuas A alma nívea dos charruas Nas coplas das madrugadas...
No fundo da alma infinita Revoam fantasmas tristes E nos seus véus de despistes Escondem noites teatinas Por traz de horrendas cortinas Que penumbram o pensamento... São gritos e fragmentos De sonhos enfraquecidos E versos xucros perdidos Nos bornais do esquecimento...
Assombrações corcoveiam No sono da inspiração Como um véu de cerração Toldando a página em branco... Não viceja o verso franco, Nem uma estrofe rimada... É como se a alma, fada Larápia de priscas eras, Deixasse o peito tapera E a mente desocupada...
Ninguém pinta o quadro agreste Do vernissage soturno Que o pensamento reúno Tenta compor no papel ... É como um suave tropel De letras desordenadas Querendo chegar do nada No lombo da poesia Com uma página vazia Peleando pra ser virada...
E a pena dorme também Entre os dedos do troveiro, Suspirando pro tinteiro, Querendo escorrer-se em versos... Nem tema em textos dispersos Aparecem nessa hora... A angustia risca de esporas O peito do pajador Enquanto o versejador Bombeia o tempo lá fora...
Cuê pucha! Que a noite é larga Nesse universo de espera! A alma tomba em tapera E a mente se para inquieta Na vastidão das lonjuras... São duendes e criaturas Medonhas e espectrais Que se transformam reais Nos prelúdios da loucura!
Por isso que a noite é vasta No perder da inspiração... É como se o coração Também perdesse o compasso Por entre o seio do laço De uma rima inexistente Que fala ao poema da gente O que a alma não interpreta, Mentindo para o poeta De que um poeta não mente”