Lagrimas de um Posteiro
Os sulcos fundos das rugas São rios de águas salgadas Que a erosão do meu rosto, Formando um mar de desgosto, Despeja todos os dias;
(Quando se inundam meus olhos Rompem barreiras da alma, Transbordando em correntezas),
O manancial do meu peito Que era calmo ancoradouro, Transformou-se em vertedouro Pra dar vazão às tristezas
Que diacho! Que mala suerte! Ala pucha, como é brabo, Somando a tarca dos anos O tempo desenrodilha O sovéu de uma existência,
E um tirão de corda inteira Golpeia por sobre-lombo, Num pealo, que bem botado, Derruba o mais afamado Sem esboçar resistência
Eu que de há tanto fui moço Jamais pensei que algum dia A vida viesse à forra Dos golpes e sofrenaços Que dei de cima dos maulas Que a sorte encilhou pra mim
Nunca pensei que as geadas, Na sequência dos invernos, Fossem minando de aos poucos O cerno bruto que eu era, Como moirão de tapera Que parece não ter fim
Judiei de muito aporreado Que ignorando meu relho, Manoteando desparelho, Derrubava os alambrados Pra se mandar mundo a fora,
Gostava de ouvir os berros Quando o malino pulando Se rebolcava no ar E teimava em corcovear Se machucando na espora
Quantas vezes, só por fula, Atropelava um morrudo Contra um capão de espinilho, E atiçava a cachorrada Pra ver a fúria do touro Que se parava igual fera, Urrando mais que um leão E o olhos bem encarnados, Emperrava e se ajoelhava, Quase arrastando no chão
Ah! Esse tempo vai longe, Como longe estou do campo Que me viu guri crescendo E moço feito, aprendendo Pra ser um homem campeiro
Mas, oiga-te, que o destino Topou-me por caborteiro: - O gado emangueirado, Foi tangido e carregado, Pra depois ser transportado Num caminhão boiadeiro
Os cavalos mais criados, Vendidos para o salame, Seguiram caminho infame Para as mãos do matador,
Os que sobraram, venderam Para as estâncias lindeiras, Pra onde foram as tambeiras Do caminhão refugadas (Algumas foram largadas Pra morrer no corredor)
Emudeceu nas canhadas Os relinchos e os retoços, O touro de berro grosso Se foi pra não mais voltar
Chegou na estância uma tropa De bestas feitas de aço Que foi partindo aos pedaços Desde o vargeão à coxilha, Derrubou a coronilha Que enfrentou tantos agostos, Engoliu mangueira e posto Qual forno engolindo astilhas
Para mim, sobrou a estrada E a dor de um peão posteiro Que não consegue entender Essa maneira de ver Que os ricos chamam progresso
Acabando os animais, Agredindo a natureza, Barrando a vida do rio Que existe na correnteza, Envenenando a paisagem E sepultando as nascentes, Manipulando as sementes Só vão gerar retrocesso
Me dei conta nessa hora Do quanto é brabo, parceiro, Há uma legião de campeiros Peleando contra a miséria Como o sangue das artérias Esvaindo-se nas vilas
Em arremedos de casas Que apelidaram favela, A vida passa a tramela Praqueles de mãos grosseiras Aonde a changa é goteira Que pinga míseros pilas
Meu Deus, lhe pede piedade, Este humilde pecador, Valha-nos nosso Senhor Da inconsequência terrena,
Minha revolta é pequena Ante a maldade mesquinha Que a cada dia se aninha No coração das pessoas,
Dá seu perdão, abençoa, Vem abrandar nossa dor E faça um grande favor De dizer para quem manda Que o progresso só se agranda Onde germina o amor!!!