O Sorro e a Lua
A noite calma e serena Nos toca seus magros dedos. Vultos por entre as sombras Perambulando seus medos Onde as quietudes cortadas Pelas histórias contadas Revelam tristes segredos.
Na boca da noite grande Se ouve gritos de socorro. Canto triste de urutau, Ao longe late um cachorro, Na grota se escuta forte Um berro com jeito de morte Por entre os dentes do Sorro¹.
Cusco do mato, ladino, Ladrão e sobrevivente. Pro cordeiro ele é um lobo, Pra cachorrada um presente, Sestroso filho da fome Que traz astúcia no nome, Selvagem por acidente.
Então vestiu-se de noite Portando presas de pua. Sentindo o cheiro do sangue E o gosto da carne crua, Passos macios no pasto, Vaqueano, sem deixar rastro, Na companhia da Lua².
Lua cheia de dezembro É quase o mesmo que um sol. Na escuridão é um guia, Para o campeiro um farol, Seguia o Sorro quietita Jorrando sua luz bonita No campo como um lençol.
O Sorro por solitário Reprovou a companhia. Não que temesse a Lua, Linda dama que o seguia. Remoeu-se de estranheza Ante a sublime beleza Que a luz da Lua continha.
Perdoa-me, dona Lua, Mas tenho que lhe falar. Humilde bicho das trevas Uso o breu para caçar. Não sei porque me acompanhas Meus truques e minhas manhas Teu clarão vai estorvar.
Lua manteve o silêncio. A mensagem compreendeu. Muda baixou os olhos Sob a nuvem se escondeu Aos poucos sumiu seu brilho E então o lobo caudilho Na escuridão se perdeu.
Um novo dia passou E a noite rendeu-lhe a guarda. O Sorro, por seu instinto De caçador veste a farda E novamente a surpresa, Fora da grota a beleza Da luz da Lua lhe aguarda.
Luz bonita! Sedutora! Com tons de azul e calor. Embrulhou entranhas do Sorro Com seu brilho encantador, Que então não sente mais fome O que sente tem outro nome, Outra forma e outra cor.
O Sorro angustiado A cada noite que seguia Mais e mais queria a Lua Seu lume, sua companhia. Quando chovia, chorava, Na nova desesperava, No crescente, renascia.
E a Lua ao longe lumia Sem uma palavra dizer. Mirava o Sorro minguando Zombando de seu sofrer. O bicho com a alma nua Olhava pra luz da Lua Sem saber o que fazer.
Enlouquecido, prostrado, Sorro não dormia mais. Cordeiros já não caçava - virou chacota dos demais - Não entendiam seu tormento Muito menos o sentimento E o estrago que ele faz.
O coração em pedaços. Alma charqueada de dor. Querer algo tão distante Fez do Sorro um sonhador. Então, aceitando a derrota, O Sorro voltou pra grota E quieto morreu de amor.