Dona Branca
A casa emudeceu-se... A sinfonia do chiar da chaleira Calou o mate que não mais roncara.
A casa emudeceu-se... A percussão de tuas panelas Não mais emitiam suas notas. Faziam melodia para um timbre Rouco, sofrido, desiludido Que em cada lágrima desafinava.
Somente o ruído velho de uma janela falava, Somente um acoite de ventos tocava uma nota Nas portas antigas sem rastros de botas. Somente fantasmas dançavam esta música Orquestrada de reminiscências num teto sem estrelas. Dançam sem pés... Dançam sem mãos... Sapateiam e sarandeiam sem membros e compasso.
Quem sabe algum gemido ainda habita Pelas tábuas de angico aprisionadas de angústias? Ou quem sabe algum sorriso esquecido talvez console Vidros sangrados de janelas trincadas Pelos gemidos cantados em algum dia frio?
E quem sabe o calor que um dia a casa recebeu Seja quem seque a madeira que uma parede sobreviveu Úmida de lágrimas após ventanias e furacões?
Calou-se a casa... Calaram-se as janelas... Calaram-se as portas... A tua voz calou!
Não há cheiro de manjericão Na panela de ferro do teu feijão. Só restam aromas de flores mortas Coroando o teu caixão. A rainha de meu reino!
O amor a assassinou, O amor a sangrou Até não restar mais sangue Pelos ventrículos e átrios do teu coração.
Dona Branca, quantas saudades... Branca era tua alma, Branca era tua aura, Branca era teu nome E hoje és branca de luz!
Quem sabe eu pegue este tal de amor E o entregue para ser condenado, Com um juizado bruto e malvado, Para lhe dar a punição que bem merecer. Maldito amor!
Maldito amor que descumpriu os salmos, Que desobedeceu a lei contida nas escrituras, “O amor é benigno, Não é invejoso, O amor não trata com leviandade, Não se ensoberbece.”
Eu então mando prender este tal de amor, Que é capaz de fazer um coração parar, Que de tanto amor... Que de tanto amar... Sufocou-se!
E sem mais folego, Dona Branca, Agora em espírito, ainda te espera, bendito amor. Pois o amor vence a morte, Onde a casa da eternidade é capaz, De trazer a paz que o corpo não tinha.
Sem mais rancho, Dona Branca dança pela terra, Esperandoque seu par consumido pela doença, Escute seu grito de amor num coração de esperanças. E num rito de perdão, Ter enfim, o afago, Ter enfim, o beijo mudo, Ter enfim a sua casa sem ruídos agoniantes. E num abraço dancem juntos a sua música, Num teto de constelações, Num chão de nuvens, Na melodia do céu!