Cantigas para Juvêncio Gonzales
O minuano matreiro timbra os ares com assobios compassados... De carancho, adentra os ranchos nessas invernias xucras, embretando aragens pelas frinchas do galpão. Gritos de assombração numa memória Onde quase tudo já virou tapera...
– Oigalê tempo feio! Quem passá esse agosto tá salvo!
Resmunga Juvêncio, sorvendo um mate... As mãos, trêmulas, atiçam as brasas de um cerne de angico... As labaredas queimam como lembranças antigas... Mui recuerdos... Dedos costeando versos, como cavalos em pencas de cancha reta, nas cordas do seu violão. Cantigas perdidas... ... Na memória ecoa a voz do patrão.
“... – Olha Juvêncio, começa a separar a palancada, pois que comprei a invernada do Arvoredo, das herdeiras do finado Ramão...”
...Chave, cavadeira, máquina, socador... A junta de salinos na lerda carreta, que descuidada, sai perdendo palanques pelo alto das coxilhas, pelo raso das várzeas... Tudo pra fins de sustentar as cordas de uma nova fronteira...
As mãos calejadas escavaram divisas, semearam mestres e socaram ilusões. Em cada canto do alambrado, numa cova que não tinha sete palmos, Juvêncio enterrava um morto* junto à memória do antigo dono daquele chão, pra que os dois, com fibra e tutano, sustentassem as cordas da mais nova aquisição!
Com a mesma destreza que afinava seu violão, ia puxando os arames... Depois... Batia com a chave no aço esticado, só para ouvir o zunido dos fios do alambrado.
Nas tronqueiras de angico, em cada mestre e contra-mestre ali enterrados, ficava um pedaço do Juvêncio... Porque o outro, ficava nas madrugadas, na volta do fogo de chão, nas cantigas, nos versos, junto co’as notas que ecoavam das cordas do seu violão...
... Uma trama de espinilho estala no fogo trazendo de volta ao galpão, Juvêncio e suas lembranças... Com as mãos tremulas, a custo, o velho alambrador sorve outro mate... A noite, aos poucos, estende seu manto negro enquanto a peonada, como num ritual, se achega pra volta das brasas. Um índio das missões lembra a história duma carreirada na cancha do Palmital!... -Judiaria com um tal negro Bonifácio*... Depois, Pedro Guerra, antigo tropeiro recém chegado da banda oriental, se abanca na volta do fogo e diz:
– Oh Juvêncio! Pega a viola e me faz um costado?! Quero dizer umas coplas novas, coisa buena lá dos castelhanos.
– Alá pucha! Cê vai me descurpá, mas não dá! Ando nesse treme-treme medonho, já tomei tudo que é tipo de chá, fiz benzedura, falei inté com seu dotô... Cosâ braba sabe... Pois me tirô dos alambrado inté do meu violão!
As conversas mermam e o galpão cai num silêncio de velório... O velho alambrador com os olhos marejados baixa a cabeça, conformado como boi tafoneiro.
Madrugadita, logo ao cantar do galo, um cobertor cristalino emponcha os campos. ... O galpão amanhece de luto... Pois que, Juvêncio Gonzáles, dormiu o sono eterno...
Na casa Grande, o carrilhão bate nove horas despertando o sol, que cria coragem e mete a cara na janela do horizonte. Os moerões, os telhados, a velha carreta... Cordas e arames, todos! Pingo a pingo choram a morte do velho alambrador...
O galpão permanece de pé. Pelegos e cepos extraviados pelos cantos... Seguem causos e cantigas pra embalar o velho violão que, com as cordas cansadas, agora dorme dependurado.
Nas noites frias, brasas e labaredas aquecem as lembranças que ficaram de um taura.
O velho que tanto semeou acordes e plantou moerões, brotará embaixo dos caibros salpicados de picumã, numa prancha entalhada: “Cantigas para Juvêncio Gonzáles Violeiro e Alambrador. ”