Dona Cucha e a casa dos Leões
O ipê semeando flores ao vento… O tranco lerdo do cavalo… A carrocinha… O leiteiro… Minha mão junto a mão de meu pai, Áspera, calejada, protetora… São vivos recortes na memória!
A rua da Ladeira, De calçamento irregular E gradil nas casas… A Casa! Imponente, mística, mágica! Por fora morada de janelas e tijolos Ancorada em pedras e argamassa. Por dentro, rodeada de mistérios E de passagens secretas… Por essa época, meu pai era construtor, Seu suor erguia alicerces, edificava sonhos e Ressuscitava casas antigas, como aquela. E eu? Eu era uma criança minúscula, De tenra idade e que pouco entendia, Pouco compreendia da vida, e dessas casas…
Lembro bem daquele dia… Da chegada e do susto! Duas colunas, cresciam, gigantes, Amparando o portão de ferro, No topo, dois estáticos leões! Nunca tinha visto coisa igual, Assim tão real, tão perto, Em ossos de concreto!
As dobradiças rugiram E solene o portão se abriu… Sob a mira dos leões, juntei Coragem e cruzei o portal, Do outro lado uma vovozinha Com olhos de esmeralda, Cabelos em tufos de algodão e Traços angelicais... Era Dona Cucha! Que na passada me enlaçou feito urso E apertando minhas bochechas cochichou: “Essa guria tem que comer feijão! Está magrelinha e sem sangue!”
Seguimos pela lateral da casa, A calçadinha salpicada de limo, Vasos, pedestais, flores e Sorrindo para os passarinhos, Um anjo, não lembro se De gesso ou plumas, Amparando uma bacia De água cristalina. Ao passar por ele Ela o repreendeu: “Não seja mal-educado Serafim Dê bom dia para as visitas!”
Saindo daquele túnel verde, Uma escadinha de pedras girava, Dando acesso a porta!
Ali se erguia a cozinha, ampla, arejada, iluminada, Ornada de azulejos lusitanos, No centro, a mesa comprida, Um trilho bordado, e sobre ele, O caldeirãozinho onde dona Cucha depositou a penca de chaves.
Um gato preto, cruzou macio, veio me olhando dos pés à cabeça, Foi nítida sua arrogância, seu deboche! Passou por mim e sentou-se na cadeira, Na ponta da mesa, feito rei em seu trono… Charlatão? Morisco? Codinome Napoleão!
Um aroma de café Se espalhou pela cozinha, E meu pai desapareceu! Na tentativa de distração Dona Cucha na ponta dos pés, desceu uma lata florida, De onde saltaram merengues… Pretexto pro interrogatório… A idade? O mano? A mãe? A velhinha falava com os olhos, a meio tom, sempre cochichando, Como se tudo fosse um grande segredo!
Concluída sabatina, sai excursionar! No meu encalço, o dito Napoleão, Sempre me seguindo, me vigiando. Vi que a sala era maior que nossa casa, A lâmpada descia por uma cordinha E era rodeada de vidrinhos… O corredor recheado de retratos… Na estante, livros e mais livros… Do outro lado, na parede, pratos, De todas as formas e cores… Morri de pena da dona Cucha, quanto trabalho para pôr a mesa!
Ao canto da sala, uma escada, Que se ia ao quarto do “Seu Sótão”, Não me contive e escalei os lances, Da porta, avistei as telhas francesas… Caixas, mais caixas, e uma vidraça Focando a copada das árvores na rua, Um canário cantava ali na soleira, Me aproximei e vi as colunas, Com os dois leões rabugentos! Achei melhor deixá-los quietos, Pisquei para o canário e ele, Compreendeu meu código… Só eu não compreendi, Como o tal do “Sótão”, dormia lá, sem colchão, sem travesseiro, sem cama!
No varandão dos fundos outra escada, Com urgência desci, algo me chamava… Na parede, um chapéu de palha, desfiado, Esquecido por algum espantalho! Um violão com braço fraturado, E pinoteando dentro duma caixa, Um par de olhos radiantes, Me convidando para passear… Ah... Como eu sonhava ter um cavalo! Quando suas patas trocaram o chão, Dona Cucha se materializou sorrindo... Captei na hora, a fofoca do Napoleão!!!
Longe… longe… A estridência, Dessas matracas de ambulantes, Por esse motivo, voltamos para cozinha… De relance flagrei dona Cucha Com a mão dentro do caldeirão Foi tudo rápido e sutil, porém, Suficiente para ler seus lábios!
“Abracadabra… Uma pena de urubu, Duas solas de sapato, Uma asa de morcego, E meia língua de sapo!”
Os olhos verdes faiscaram e De dentro do caldeirãozinho surgiu uma moeda de prata. Dona Cucha saiu e logo voltou, olhar maroto, nas mãos, o embrulho em palha de milho! Rapadura pra comer com limonada! Sorrindo baixinho ela dizia… “Limpa o sangue e engrossa perna!”
Já era tardinha, quando, O portão voltou a rugir! Saímos em direção à rua, No alto os leões carrancudos! Na área, Napoleão parecia inchado Devia ser ciúmes, pobre coitado! Meu amigo canário sobrevoou o anjo e pousou na borda da fonte cantando, Disfarçadamente acenei. O coração saia pela boca e Eu finalmente saia para rua, Seria minha primeira cavalgada! O portão voltou a rugir pesado, Estremecendo a terra! Dona Cucha e suas asas ficaram lá, Presas, eternizadas, no passado!