UM RECITAL PARA O SOL
Se foi o sol... Como uma tocha, se apagando na coxilha. Restos de raios e uma réstia que inda brilha, Espiando pelo espelho das aguadas, Uma graça triste, que se aninhou sob a ramada, Pois, por instinto, a pobre garça, já sabia. Que aquele sol, que se foi, não voltaria, Quando amanhã, terminasse a madrugada.
Nuvens lobunas se erguiam no horizonte. Rabos de galos, desde antonte já se via. Trovões ao longe, sucedendo calmarias. Prenunciando, enchente grande, inverno largo. Deixando tudo acinzentado nesses pagos, Sem sol, sem lua, nem estrelas, no azul da imensidão. Restando apenas, sob as quinchas dos galpões, Sóis fogoneiros pra aquecer dias amargos.
Se vão os dias, sem ter sol, e os poetas... Cantam a chuva, as estrelas e a lua. Talvez não saibam, que o estro e o bronzeado das chiruas, Não existiram, sem a luz e o calor de um sol pampeiro, Nem haveria, tropas de bois, para tanger pra o saladeiro. Muito menos, sesteadas longas sob as copas das figueiras, Nem berro de potros, contra esporas cantadeiras, Tampouco, reculuta, para os missais campeiros.
Por isso eu, que não sou poeta, Cantarei ao sol, meu irmão eterno. Que muito mais, que abrandar-me invernos, Enternece a terra, de virtual beleza, Com o romantismo e a sutileza, Das primaveras, desabrochando flores. Sedutor oculto a plantar primores, No ventre fecundo, da mãe natureza.
Mais que um irmão, és o Tupã, das luzes, És quem secas as lágrimas, quando a noite chora. Deixas um vazio na alma, quando vais embora E o peito pequeno para o coração. Até os fantasmas, frente á escuridão Se assustam alpedos pelos descaminhos. E talvez por medo, de ficarem sozinhos, Nos empurram á porta, á procurar clarão.
E é nesses tempos, de chuvaradas longas, De varar ponchos e as abas dos chapéus, De nuvens sisudas, a enlutar o céu Que a garça triste, bate asas, num ritual de esperança. Pedindo o sol, que enfeitava as tardes mansas.
Como envocando, os Pagés que em suas danças fazem chover, Crendo que eles também, possam trazer, de volta o sol que se foi, numa contra-dança.