Sonata para a Musa Revelada
I
Talvez se Renoir de ti soubesse, da luz que no teu riso se revela, tivesse eternizado-te nas telas exposta no esplendor que permanece.
Petrarca, se teu vulto concebesse quem sabe, não sofresse tais mazelas... E Laura não seria mais a bela de todos os sonetos que escrevesse.
Da Vinci, deslumbrado de ternura, previu-te perpetuada na moldura e pôs o teu olhar na Mona Lisa
Beethovem, num sonoro frenesi teria dedicado para ti o canto angelical que fez pra Elisa.
II
Camões, que navegou por mares vastos singrados pela lira lusitana, nos versos que timbrou teu nome explana co’a pena que cantou à Inês de Castro.
Cervantes que, apesar de estar no claustro, doou a Don Quixote asas humanas... Na doce Dulcinéia, só emana a glória de sentir teu colo casto.
Balzac, tanto quanto se define, nas cartas que enviou para Evelin e descreve tua tímida silhueta...
Percebo que, também pensando em ti , um dia, apaixonado, shakespeare cismou que deverias ser Julieta.
III Eu te vi tanta vez em sherazade... Em Isolda, em Helena, em Rapunzel e te ouvi em corais vindos do céu naquela primavera de Vivaldi.
De Afrodite, de Vênus tu te evades pra ser pauta ou soneto no papel, a musa mais constante e mais fiel da ópera às milongas de arrabalde.
Porém após milênios de cultura em versos, em acordes e esculturas, te vejo nos meus olhos revelada.
E tendo-te ao meu lado, assim, desnuda... Eu penso que és aquela a quem Neruda compôs sua Canção Desesperada.